terça-feira, 14 de outubro de 2025

A livraria Saudade e a defesa dos espaços comuns

Todo espaço comum é um espaço partilhado e aberto à diferença, e como tal todo espaço comum é e deve ser diverso. 

A qualidade de comum dos espaços não se refere a que sejam todos iguais, todos os espaços comuns, como as cadeias de pastelarias, as cadeias de restaurantes ou as cadeias de livrarias. Os espaços comuns precisam ser diversos para poder acolher a todos na comunidade. Não sempre os mesmos, nas mesmas condições e com as mesmas características. 

Que sejam cadeias deveria dizer-nos alguma coisa. 

Alguem poderia dizer que uma livraria de cadeia, embora seja igual a qualquer outra, acolheria pessoas e eventos diversos; e efetivamente o faz.

Mas os que estudam literatura sabem que a forma é a mensagem. E isso não se limita só ao literário. 

Pois bem, nesse sentido, soube da abertura duma nova livraria em Lisboa, que vende unicamente livros não publicados em Portugal, vindos principalmente do Brasil. E fiz questão de visitar. 

Uma coisa que nunca passou pela minha cabeça quando decidi ficar em Portugal foi quão difícil seria deixar as bibliotecas e livrarias bogotanas, sobretudo as bibliotecas com livros e livros na minha lingua, para trás.

Agora bem, hoje sinto menos esse peso, porque agora para além das livrarias já existentes, com os catálogos portugueses e demais, há também esta pequena mas imensa portinha para o universo lusofono não publicado em Portugal. 

Aconteceu pela sorte ou pelo destino que ao mesmo tempo que eu visitei a livraria havia um lançamento de um livro infantil , e eu era apenas o único alí na livraria a folhear livros. (Nunca vi uma secção tão grande de psicanálise em uma livraria em Portugal).

Só estava a autora, a família dela e dois amigos, um homem e uma mulher, que planeavam construir uma casa e morar juntos na velhice sendo mesmo só amigos.

E a autora decidiu falar comigo e convidar-me ao lançamento. Aceitei mais por constrangimento que por vontade. 

Fiquei ali a ouvir a história do livro de uma autora da qual só ouvi hoje pela coincidência aquela vez, falamos de sementes e sonhos, e fiquei a saber que a livreira chamada Julia também fez o mestrado que nós, colegas, estamos a estudar e apercebi-me quão perto estamos uns dos outros se decidimos participar desses espaços, aceitar os convites, ou ir á livraria com as expectativas perdidas e o olhar aberto. Uma visita à uma livraria, seja qual for, é sempre abrir-se. Abre-se a pessoa enquanto abre os livros. Fiquei contente de ter sido constrangido a ficar. 

E finalmente, foi um grande alívio entrar numa livraria cuja primeira impressão não é uma série de livros com capas de cores gritantes, chamativos, sedutores, um barulho visual dificil de tolerar. A sobriedade desta livraria pequenina me surpreendeu. A sua elegância e despretensão, enfim. 

Deixo para a prova disto tudo uma indiscreção: a dedicatória da autora do livro “Gigi e o Girasol” 



Se depreende disto tudo, como é natural, que recomendo vivamente esta livraria. 

Fica um bocadinho afastada do metro mas vale a pena lá ir. Abriu apenas no mês passado. Se encontrarem a Julia digam que leram este pequeno textinho e ficaram a saber dela assim. 

Felipe Barahona



Livraria Saudade

https://www.instagram.com/saudadelivraria?utm_source=ig_web_button_share_sheet&igsh=ZDNlZDc0MzIxNw==

R. Melvin Jones 6 A, 1600-867 Lisboa

Segunda a sábado das 10 Am a 1 pm e das 2 pm as 8 pm. 

Sem comentários:

Enviar um comentário

Exercício 15: história triste em três palavras

  —  Agora só amanhã.