domingo, 19 de abril de 2026

Exercício 12: A voz do autor — de uma mulher na piscina a rajadas de metralhadora

Tenho uma confissão a fazer: não aprecio a forma como o Ernest Hemingway escreve.

Atenção: acho as suas histórias tremendamente importantes. Não vou começar a insultar um dos maiores escritores do século XX só porque as suas narrativas não me tocam da forma que creio que deveriam. Apesar de não serem as minhas experiências de leituras favoritas, são clássico bastante acessíveis, maioritariamente curtos, e continuo a ler pelo menos um por ano.

Durante imenso tempo, justifiquei a minha posição com o meu gosto para livros mais virados para a interioridade, com menos diálogo e ação. Por exemplo, a abertura de A Imortalidade em que observamos uma mulher a nadar. É há mais de dez anos a minha abertura favorita de um livro.

Agora que folheei alguns dos meus clássicos favoritos em busca de exemplos, percebi que não é bem verdade: A Leste do Paraíso tem diálogo para dar e vender e não me induz na espiral ansiosa e desorientada que senti ao ler Por quem os sinos dobram. Os Subterrâneos da Liberdade tratam assuntos igualmente sérios e políticos, no entanto, a escrita do Jorge Amado é tão cinematográfica que me transporta para fora da página e para um cenário de telenovela. Kurt Vonnegut escreve uma experiência completamente surreal entre raptos alienígenas e o bombardeamento de Dresden no Matadouro Cinco e eu não leio as páginas num ziguezague constante para saber o que vai acontecer ao ponto de ter de reler todas as páginas duas vezes: primeiro o diálogo, depois o restante texto.

E todos eles usam o mesmo recurso tipográfico para marcar o diálogo: o travessão Portanto, não é uma questão de forma e de «fazer batota» para saber o que se vai passar a seguir.

Começo a achar que o problema sou eu.





A abertura de A Imortalidade, perfeita, sem defeitos.


Trecho de O Adeus às Armas: diálogo completamente alucinante, a certo ponto já nem sei bem quem está a dizer o quê.


Em A Leste do Paraíso a interposição do diálogo com excertos mais descritivos já ajudam a marcar o ritmo de outra forma e tornam o diálogo mais compreensível. 


Kurt Vonnegut descreve-nos cenários completamente absurdos e mesmo assim tenho melhor compreensão do que se está a passar do que nas rajadas de páginas e páginas de diálogo de Hemingway.


O Jorge Amado consegue ser visual sem ser excessivamente descritivo. Consigo imaginar os gestos, o tom de voz e o andar das personagens neste trecho.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Exercício 11 - Traduza o seguinte poema de Raymond Carver

 Bebendo enquanto conduzo


Estamos em Agosto e já não

Leio um livro passam seis meses

exceto algo intitulado «A Retirada de Moscovo»

de Caulaincourt

Mesmo assim, sinto-me feliz

No carro, com o meu irmão

a beber bourbon da garrafa.

Não temos destino

Apenas conduzimos.

Se fechar os olhos por um instante

Estaria perdido, mas

Feliz me deitaria e dormiria

na berma desta estrada 

O meu irmão cutuca-me

A qualquer momento, algo acontecerá.

Exercício 14


 

Exercício 16: Traduza para outra língua este poema

Do not bullshit me. Do not lie.

Do not look me in the eye. Just go.

Save me your mealy-mouthed speeches.

And the farse of goodbye. Do not make a scene.

 

Do not say you're sorry or that life

is what it is: that everything washes away.

That life and time can heal any wound.

I repeat, my love: be gone.

 

Take whatever you want of

what we once believed shared:

The books, the sandalwood sculptures,

The records, the portraits, the billiards.

 

Do not leave an address. Please:

My love, all I want is for you to fuck off.


Ansiedade ao rubro - versão final

 Hoje, acordei cedo e preparei-me para uma entrevista de emprego. Vesti a minha roupa mais profissional. Despedi-me do meu gato e caminhei até à paragem de autocarros.

Qual não foi o meu espanto quando percebi que a paragem não existia. Simplesmente, já não circulavam autocarros em Portugal!

Instalou-se o pânico em mim. Lembrei-me dos ensinamentos daquele livro de meditação que li há uns meses e respirei fundo. Apercebi-me de que não queria saber daquele emprego. É mais importante ter saúde e um gato que me espere todos os dias à porta. Foi, então, que me ocorreu que tinha deixado a janela aberta.

Naquele momento, tudo o que aprendi com o livro de meditação já tinha ido pelos ares. A ansiedade e o stress haviam tomado conta de mim e já não me sentia eu mesma.

Porém, lembrei-me do que o meu ídolo me disse e que me ajudou a ultrapassar momentos difíceis,: "Posso não ser o melhor, mas na minha cabeça sou". Como o melhor do mundo, corri de volta a casa. No meio de toda esta confusão, esqueci-me de que o caminho de volta era íngreme e a minha resistência estava nas últimas. Não corri mais do que um par de metros e já não conseguia respirar.

Lembrei-me de uns exercícios para a ansiedade que vi num vídeo do TikTok e consegui-me acalmar. Já não tinha interesse naquele emprego, decidi ir ao lago dos peixinhos, que ficava perto de casa.

- Então e o gato?! - perguntou a voz da minha cabeça.

- O gato fugiu pela janela! - pensei, angustiada.

Foi, então, que, ao chegar ao lago, o descobri sem peixinhos e o que parecia ser o último sobrevivente, estava na boca do meu gato!

- SIMBA!! - gritei desesperada, ao ver o meu gato laranja e gordo a almoçar os peixes do lago. Consegui agarrá-lo e pô-lo no meu colo, onde, após encher o bucho, escolheu dormir. O seu ronronar trouxe-me paz.

Paz era aquilo que eu mais procurava naquele momento. Só eu e o meu gato.

Exercício 15: Escreva uma história triste usando só três palavras

 Não trouxe isqueiro.



terça-feira, 14 de abril de 2026

Um erro mortal, uma regra a saltar e bons exemplos (Exercício 13)


Um erro mortal: gralhas na capa

Podemos ver uma primeira edição do primeiro volume dos contos completos de Bulgakov, Garganta de Aço, publicada pela Eprimatur. No canto inferior direito, podem ver na imagem ampliada "Brilahnte" no lugar de "Brilhante". Podemos confirmar: não é brilhante. Mais ainda, tendo em conta a frágil credibilidade que qualquer tradução direta de línguas como o russo já tem à partida (exceptuando casos já consagrados, como as dos Guerra ou António Pescada), esta gralha na capa é um péssimo cartão de visita. Pelo que vejo no site, a editora ainda não corrigiu.




Segundo erro: capas com frames de filmes

Não há muito para dizer, é o que o título diz. É o caso da edição de Doutor Jivago de Pasternak, publicado pela Sextante Editora, com a devida menção do tradutor na capa, António Pescada, e do Nobel do autor. Tudo certo, mas…. Porquê um frame do filme com a cara do Omar Sharif na capa? Não sou suspeito, adoro David Lean, mas, por favor, não na capa dos meus livros. 



Não é de admirar que tenhamos metade dos nossos conhecidos a comentar "gostei mais do livro". Cúmulo dos cúmulos, ouvi um conhecido dizer isto aquando da saída do filme da Anna Karénina (2012). Ia morrendo.


Primeiro exemplo: usar frames de filmes

Todo o exemplo tem o seu contraexemplo. É a natural: a luz tem a treva; o yin, o yang; o bom tem o mau; o belo, o feio e por aí fora... seleciono um livro que me pareceu especialmente bem conseguido e que usa um frame do O Sétimo Selo (1957). Trata-se da biografia de Ingmar Bergman escrita por Peter Cowey, publicada pela britânica Faber & Faber, chamada God and the Devil. Em certos contextos, não devemos só saltar sobre o exemplo, mas ir mesmo contra ele. Este é um deles:



Segundo exemplo: aproveitar capas de/em coleções ou volumes

As capas dos dois volumes do Segundo Sexo de Simone Beauvoir da Quetzal fazem claro o argumento. A editora, no bom gosto que caracteriza as suas capas, acertou em cheio. Além do que o conteúdo do I volume motiva no leitor, a capa do II dá um motivo extra para ser comprado. Pela positiva, são escolhas editoriais como esta que tornam obras já publicadas há décadas novos e verdadeiros hinos ao colecionismo.



Terceiro exemplo: timing e design

Edição da Antígona (2007)

A edição de 2007 de 1984 da Antígona é, a meu ver, um excelente exemplo de timing e de design. Como podemos ver neste link e em qualquer site internacional de retalho livreiro, a ideia do olho na capa de 1984 não é mundialmente original desta editora, mas é original em Portugal. A Antígona chegou primeiro, tudo o que veio depois são cópias, independentemente de serem enriquecidas com excelentes ilustrações do Vhils ou com prefácios do Gonçalo M Tavares:

Edição da Relógio D'Água (2021)


Edição da D. Quixote (2021)


Clássica Editora (2021)


Clube do Autor (2021)


Porto Editora (2021)

O design da Antígona, simples e marcante, é excelente e alimentou todas as restantes publicações da obra do Orwell na editora. Um exemplo português de uma editora que acertou em cheio (e com força) no alvo.


A título de curiosidade, partilho convosco o caso da edição inglesa da Penguin, que escapa, de forma verdadeiramente brilahnte, à norma deontológica ocular que as capas de 1984 têm assumido no mundo:



Quarto exemplo: a capa como geradora de coleções artificiais

Segue este último exemplo da publicação de Cidade na Planície (e dos restantes títulos) de Cormac McCarthy, pela Relógio D'Água. Tratando-se da única editora responsável, ao que sei, pela publicação da obra deste autor em Portugal, sem se desviar do seu design tradicional, a Relógio D'Água criou uma espécie de "mini coleção" de um só autor dentro do seu catálogo. Fez isto aliando um autor a um mesmo tipo de design e um único tradutor. O nome do tradutor, Paulo Faria, também é justamente destacado na capa. Isto não só pela qualidade de outras traduções suas (como o A Quinta dos Animais de Orwell, pela Antígona, em fotografia acima), mas também pelo seu envolvimento aprofundado com a tradução da obra de McCarthy, tendo inclusive afirmado em entrevista ter falado com o autor diretamente a propósito da sua obra e de questões da sua tradução.



segunda-feira, 13 de abril de 2026

Exercício 13: Capas e Contracapas

 No âmbito do exercício proposto, fotografei algumas capas e contracapas que considero ilustrativas dos aspetos que me chamam à atenção, tanto de forma positiva quanto negativa, num exemplar.

Para iniciar, apresento a edição da Tinta-da-China do livro Depois a Louca Sou Eu, de Tati Bernardi. A capa, simples e ilustrativa do conteúdo da obra, aborda situações autobiográficas em que a autora se confronta com o uso de comprimidos para lidar com os transtornos da sua vida, utilizando o humor para descrever experiências tão complexas. Assim, a ilustração da caixa de comprimidos e o título do livro, juntamente com o nome da autora, destacam-se de forma adequada, assemelhando-se ao nome de um medicamento e à sua administração, estando bastante proporcionais e com o destaque adequado

Na badana anexa à capa, encontra-se uma citação que expõe, desde logo, uma boa parte da temática do livro e apresenta uma agradável mancha gráfica. A contracapa contém uma sinopse concisa e que caracteriza de maneira excelente o livro, mantendo o texto no formato da parte posterior de um frasco de comprimidos, como na capa. Na outra badana, há uma breve biografia da autora, que considero essencial e que faz todo sentido encontrar-se nesta.











Para uma segunda análise, decidi trazer duas capas que considero bastante atrativas, do mesmo livro e da mesma editora, Dom Quixote, para existir um claro termo de comparação. A primeira capa, datada de 2016, opta pela versão estrangeira, que ilustra brilhantemente a obra. Esta fotografia é já de uma reedição após Han Kang ter recebido o Prémio Nobel em 2024, indicado no topo da capa. A disposição do título e do nome da autora está perfeita, com o destaque certo, ando até uma certa ilusão de profundidade; no entanto, não aprecio a indicação de que se trata de um romance vencedor do Man Booker International Prize, pois não considero adequada a sua localização nem formatação, que apresenta “Romance” numa linha e o restante na linha inferior. Substituiria, de maneira a que essa informação aparecesse no canto superior, alinhada com a menção ao Prémio Nobel.

Relativamente à contracapa e às badanas, considero que estão excessivamente carregadas. Removeria os comentários excessivos da contracapa e incluiria uma sinopse, proporcionando mais espaço à badana anexa à capa, na qual manteria a biografia da autora. As apreciações do livro poderiam ser incluídas de qualquer forma na badana anexa à contracapa, sendo escolhidas as mais “importantes” ou chamativas.

No que diz respeito à edição de 2025, a capa é substancialmente mais vibrante, mas transmite uma ideia fiel do livro. Prefiro a simplicidade desta versão, assim como das suas badanas e contracapa. Como pormenor a melhorar nas badanas, sugeriria uma transição gradual da cor vermelha, em vez da mudança abrupta de um vermelho intenso para um branco claro, especialmente porque há espaço para esta.







 

 






Em contraste, apresento um exemplo de uma capa que avalio negativamente de uma edição da Alma dos Livros. Em primeiro lugar e menos importante, não a considero esteticamente apelativa; em segundo, as proporções parecem desajustadas e a composição revela excesso de informação desnecessária. A capa inclui o título “Mr. Masters”, o subtítulo “As leis do desejo” e ainda a frase “O prazer tem as suas próprias regras”. Na linha inferior ao nome da autora surge a expressão “o fenómeno internacional”, o que é bastante redudante, tal como o autocolante no topo que indica tratar-se de um número um em Portugal e bestseller internacional. Para além disso, apresenta ainda uma cinta promocional que repete essa informação e acrescenta algumas palavras sobre o livro que pouco contribuem.

A contracapa constitui outro exemplo de excesso informativo: embora inclua a sinopse, apresenta também várias frases chave em destaque, resultando numa composição pouco coerente. As badanas são, assim, o elemento mais equilibrado, contendo apenas a biografia da autora e a listagem das suas obras.




Para terminar, destaco uma edição de um “pequeno” livro de poesia da Orfeu Negro, que considero digna de nota, por apresentar, a meu ver, a capa e a contracapa mais bem concebidas entre os exemplos analisados. A ilustração é excecional, e a colocação do título e do nome do autor em cantos opostos, sobre áreas claras, revela-se equilibrada e visualmente eficaz. A composição é harmoniosa e proporcional, sendo ainda de salientar a integração do símbolo da editora, bem conseguido tanto na posição como na escolha cromática.

Na contracapa, surge no topo um breve verso em destaque, que representa adequadamente a poesia de Elvis Guerra. Ainda assim, seria preferível uma amostra mais extensa do texto poético, em vez do excerto da nota de André Tecedeiro, que poderia ser substituído por uma simples indicação, como “Posfácio por André Tecedeiro”, que já existe. A inclusão de uma breve biografia e a menção de se tratar de uma edição bilingue são pertinentes. Os créditos de tradução e do posfácio são também importantes e contribuem para um preenchimento discreto e organizado da página.

Importa, por fim, referir que não é apenas a capa que se destaca: trata-se igualmente de uma obra que merece ser lida e de que gostei de maneira especial.

 

Exercício 12 – o musical infantojuvenil


Comecei a ouvir música cedo, com os livros a fazer de pauta. Passados por primos mais velhos ou encontrados na parte de trás, dentro de um armário, da sala de aula da escola primária, os livros de Uma Aventura foram essenciais para o desenvolvimento do meu gosto por ler. Não os li quando a eles tive acesso, logo no início da primária, mas olhava para eles com o objetivo de os conseguir, um dia, compreender.

Se muito falamos em “grandes autores” ou “autores fortes” e associamos estes termos a, por exemplo, Saramago, Pessoa, Agustina Bessa-Luís (e não erradamente), o cânone literário português não me parece esgotar-se na “literatura dos crescidos”. Lemos porque é um hábito, cultivado por terceiros ou "auto-plantado". Se desde novos o temos, não começámos, certamente, a ler clássicos (quem começou que se acuse, nos comentários). Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada surgem (pelo menos para mim, acusem-se, novamente, nos comentários) como as cabecilhas de um cânone infantojuvenil português. Surgem quase como um só autor, um nome próprio ou composto que escreve numa só voz e que leva muito mais do que 5 jovens a várias partes do país.

Paralelamente, e como muito se vê na Gen Z, comecei a ler literatura estrangeira, implementando-se como hobbie quase obsessivo a leitura da saga de Harry Potter. J.K. Rowling oferece aos leitores (que se estendem por todas as faixas etárias (não iremos aqui discutir o enquadramento dos livros, embora o tivesse já classificado como infantojuvenil, ups!)) mais do que o acompanhamento de um órfão que se descobre feiticeiro, isto é, alarga o imaginário de quem lê e abre a possibilidade de nos inserirmos no seu universo, muito graças à magnitude que ganhou a obra e que, rapidamente, se tornou marca. Frequentemente, abordamos a temática monetária no mestrado: J.K. Rowling (podem também discutir nos comentários a polémica da pertença da obra à autora) vem mostrar que é possível fazer um sem fragilizar o outro: quanto mais a marca aumenta, mais livros surgem dela derivados.

Comparando, enquanto a saga Harry Potter me fazia desenvolver um mundo imaginário ou, mais concretamente, inserir-me naquele que foi mostrado nos filmes, Uma Aventura levava-me a lugares concretos que, ainda hoje, são na minha mente um pouco como os que li nos livros: revisito o Ribatejo, o Porto, a Serra da Estrela, mas não revisito Hogwarts, imagino-o.  

A principal diferença entre estas «sagas» não é apenas a proximidade que estabeleci com cada uma delas, mas a ligação que Harry Potter fazia com o meu imaginário, que contrastava (e contrasta) com ligação de Uma Aventura às experiências que ia vivendo. Crescer com estas duas coleções é crescer com dois grandes motes da literatura: ora desligar-nos do mundo em que vivemos, ora aproximarmo-nos deste.

 

Nota: “Somos filhos do aquário em que nascemos”, por isso, é possível que a escolha de autoras contemporâneas possa não estabelecer uma ligação automática com todos. A maior referência desta escrita é a memória, mas podem encontrar Uma Aventura publicada pela Caminho (em anexo, segue uma imagem de um exemplar com algumas marcas de guerra); quanto à saga Harry Potter, os livros foram emprestados, mas não faltam edições em qualquer livraria.

            Matilde Cabana








sábado, 11 de abril de 2026

Exercício 16 - Tradução do poema "Não inventes" de José Carlos Barros

DON’T MAKE THINGS UP

Don't give me that bullshit. Don’t make things up.
Do not look me in the eyes. Just leave.
And spare me of/the persuasive/articulate speeches 
And the sham/deceit of farewell/goodbye. Don’t make a scene.
 
Don’t say you’re sorry or that life
sometimes is this way: that everything is forgotten;
that the world and time heal all wounds.
I repeat, my love: be gone.
 
And take everything you want from what
we one day imagined to share:
the books, the sculptures in sandalwood,
the records, the portraits, the billiards.
 
Do not leave any addresses. Please:
what I want is for you to fuck yourself, my love.

Exercício 15 - Escreva uma história triste usando só três palavras

Esqueci-me do guarda-chuva

Exercício 11 - Tradução do poema “Drinking while driving” de Raymond Carter

Beber ao volante

É Agosto e eu não
Leio um livro faz seis meses
Exceto uma coisa chamada The retreat from Moscow
de Caulaincourt
Todavia, sou feliz
A andar de carro com o meu irmão
e a beber uma lata de Old Crow
Não temos nenhum destino em mente,
apenas conduzimos.
Se eu fechar os meus olhos por um minuto
Estarei perdido, porém
Poderia de boa vontade deitar-me e dormir eternamente
à beira desta estrada
O meu irmão dá me uma cotovelada
A qualquer momento, algo irá acontecer

Exercício 15 - História triste em três palavras

 "Era até ontem."

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Exercício 15 - História triste em três palavras

 "Os combustíveis aumentam."

Exercício 16 - Tradução do poema "Não Inventes" para espanhol

 No Inventes

No me vengas aquí con mierdas. No inventes.
No me mires a los ojos. Vete simplemente.
Y ahórrame los discursos elocuentes
y las farsas de despedida. No montes un numerito.

No digas que lo sientes o que la vida
a veces es así: que todo se olvida;
que el mundo y el tiempo curan cualquier herida.
Repito, amor mío: desaparece.

Y llévate lo que quieras de todo aquello
que un día pensamos compartir:
los libros, las esculturas de palo santo,
los discos, los retratos, el billar.

No me des direcciones. Por favor:
lo que quiero es que te jodas, cariño.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Exercício 14 - Revisão do Artigo


 

Exercício 15 - História triste em três palavras

"Conheci-te, amei-te, perdi-te."



Exercício 11 - Tradução do poema de Raymond Carver

 Beber a Conduzir


É agosto e

Não leio um livro em seis meses

exceto um chamado The Retreat from Moscow

de Caulaincourt

Mesmo assim, sou feliz

Num carro com o meu irmão

e a beber um copo de Old Crow.

Não temos destino,

estamos só a conduzir.

Se fechasse os olhos por um minuto

Estaria perdido, ainda assim

Poderia deitar-me e dormir para sempre

ao lado desta estrada

O meu irmão empurra-me.

A qualquer minuto, alguma coisa irá acontecer.


Exercício 16: Tradução do poema "Não Inventes" para inglês

Leave 



Don’t fuck with me. Stop making things up.

Don’t stand there staring at me in the eyes. Just leave

And spare me your sweet talk

And fake goodbyes. Don’t make a scene.


Don’t say you’re sorry or that “it is what

it is,”: and that everything fades;

that the world and time heal all wounds.

Let me say that again, love: leave.


And take whatever you want from what

we once thought we’d share:

the books, the bibelots, the records, 

the portraits, the pool table.


Don’t leave any address. And please:

Fuck off, my love.


TUDO SOBRE O PROJETO DE LIVRO

 As diretivas são claras mas clarifico-as de novo: 

1) 20-22 páginas 

2) 2-3 frases por página

3) ilustrações de momento, amadoras q.b. (presumamos que depois haverá ilustração profissional) 

4) Público-alvo: digamos, 2-7 anos

5) Autoras são responsáveis pela obra. Editoras pela edição, revisão, aconselhamento em geral e campanha de comunicação e marketing mas a colaboração das autoras é welcome (obrigado, Rita M e Raquel S por me ajudarem a esclarecer)


O resultado é um mono, em papel e PDF (para poderem projetar em aula, desde logo). Não é preciso gastarem dinheiro a ir a uma tipografia, a menos que queiram. É um jogo, e um jogo só tem piada se o levarmos a sério. 

Na próxima aula, espero já que me mostrem o estado da arte. Não tem de ser final, mas em 3-5 minutos  têm de mostrar algo. 


Máquinas mentais que podem ajudar: 

  • Andaimes-fantasma que ajudam a construir a história mas não estão lá: "Era uma vez", "Fim"
  • Esta é a história de __ que mais que tudo quer __ mas não pode (por causa de __)
  • Método SER@: Simplicidade, economia, rigor
  • Ato 1 --> Ato 2a / Ato 2b --> Ato 3
  • No fundo, a história é só o Ato 2, o momento de crise e a resolução ou não desta entre dois pilares



Só o Gabriel, tanto quanto percebi, está sozinho. Assim, ele entra num grupo para que editem (leiam etc.) o livro que ele fizer. Podem falar com mais colegas, mas apenas serão creditados nos agradecimentos, quando muito...


quarta-feira, 8 de abril de 2026

´Lançamento do Livro "Nina Roça Água-Izé"

 Olá Pessoal.

Tem um lançamento de um livro neste próximo sabádo às 16 horas, na Embaixada de São Tomé e Príncipe. 

É de um escritor são-tomense que conheci à pouco tempo. Também irei fazer uma pequena participação.

Quem tiver interesse em comprar, o livro fica 16 euros.

Fica aqui o convite.



Exercício 16 - Tradução do Poema “Não inventes”

Don’t feign

 

Don’t come with shit. Don’t feign.

Don’t look at my eyes. Just leave.

And spare me the ornate speeches

And the farewell sham. Don’t make a scene.

 

Don’t tell me you’re sorry or that life

Is like that sometimes: that it forgets everything;

That the world and time heal any wound.

I repeat, my love: disappear.

 

And take whatever you want of everything

We suspected sharing one day:

The Books, the sculptures made in holy wood,

The discs, the portraits, the snooker.

 

Don’t leave any addresses. Please:

I just want you to fuck yourself, my love. 

Exercício 14 - Revisão de trecho

 


Exercício 11 - Tradução do poema "Drinking while driving" de Raymond Carver

Conduzir, a beber


É agosto e

Não leio um livro há seis meses

exceto algo com o nome Retreat from Moscow

de Caulaincourt

No entanto, sou feliz

A andar de carro com o meu irmão

e a beber uma caneca de Old Crow.

Não temos nenhum espaço em mente para ir,

estamos simplesmente a conduzir.

Se fechasse os meus olhos por um minuto

Estaria perdido, ainda

Podia, de bom grado, deitar-me e dormir para sempre

Junto a esta estrada

O meu irmão cutuca-me.

A qualquer minuto, algo acontecerá.

Exercício 14: um minuto para rever trecho

 


terça-feira, 7 de abril de 2026

Masterclass 3 já esta quarta 8: João Morales

 Por motivos de agenda, será já esta quarta 8 a terceira e última aula magistral deste semestre. Desta vez o convidado será João Morales, atualmente animador cultural mas com uma experiência vasta neste mundo: jornalista, diretor da revista Os Meus Livros, comissário de festivais, organizador de sinergias país fora. Como de costume, aguardamos as vossas perguntas.

João Morales

Começou no jornalismo em 1993, no Diário de Notícias. Publicou no Correio de Domingo e pertenceu ao diário A Capital. Integrou a Gazeta de Lisboa, o semanário Meios & Publicidade e a revista Media XXI, da qual foi editor. 

Entre 2004 e 2012 dirigiu a revista mensal Os Meus Livros. Foi colaborador da Time Out e tem artigos em várias outras publicações, incluindo os meios online Bran Morrighan e Deus Me Livro, escrevendo em especial sobre entre literatura e jazz. Há mais de uma década que apresenta “25 MÚSICAS PARA O 25 DE ABRIL”, em diversos pontos do país.

Organizou os ciclos Com Todas as Letras, Recordar os Esquecidos ou Confesso que Li, sessões na Feira do Livro de Lisboa e diversas bibliotecas municipais. É programador dos festivais Livros a Oeste (Lourinhã, desde 2012) e do ciclo anual Viver (Com) a Escrita (Santiago do Cacém, desde 2014). Programou os festivais Textemunhos (Lamego), As Palavras que nos Unem (nos dez concelhos do Alto Minho) entre diversos ciclos, sessões em livrarias, bibliotecas e escolas.

Co-organizador do Fórum Fantástico, criou e desenvolveu o projecto Literatura — Língua Comum, para o Programa Escolhas. Integrou o Júri do Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca e mantém no Youtube o Canal 19. 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Procura-se Editor(es) 👀

Procura-se editor(es)! 

Boa noite, caros colegas

Gostaria de saber se existe alguém na turma que ainda se encontra sem par para o projeto final do livro infantil e, assim como eu, precisa de um editor. Ou, no caso de uma dupla, saber se não se importam com a integração de um terceiro elemento no projeto.

Deixo aqui o apelo e também o meu número para poder ser contactado (ou não).

961973410


Com os melhores cumprimentos, Gabriel Alves 


sábado, 4 de abril de 2026

Exercício 12 - A Voz de Dois Autores

 

Escolhi dois autores que tenho lido muito nos últimos tempos e que estão entre os meus favoritos (e entre os favoritos de muitos outros leitores). Para não complicarmos isto geograficamente, fizeram o favor de nascer ambos na mesma ilha.

Comecemos, respeitando a cronologia, por Jane Austen. Tomemos como referência uma das frases de abertura mais conhecidas da história da literatura mundial:

“É uma verdade universalmente reconhecida que um homem rico e solteiro precisa de uma esposa.”

Quem está aqui a falar? Será esta, de facto, a opinião do narrador de Orgulho e Preconceito? Ou estará este apenas a reproduzir a voz da sociedade da época? E, reproduzindo-a, não estará desde logo – através da forma como nos fala - a emitir um juízo sobre essa convenção?

É disto que mais gosto em Austen - a maneira como conhece o pensamento da sociedade do seu tempo e o modo como, limitando-se muitas vezes à respetiva descrição, o consegue ridicularizar. O segredo está na forma como o diz. Por exemplo, quando Mr. Darcy nos é apresentado, no terceiro capítulo, através dos olhos de terceiros:

“Os cavalheiros declararam-no muito mais bonito do que o senhor Bingley, e foi universalmente observado com grande admiração durante metade da noite, até ao instante em que as suas maneiras causaram um desgosto que mudou a maré da sua popularidade; sucedeu isso quando se descobriu que o senhor Darcy era orgulhoso, que se julgava superior a todos os presentes e que não estava satisfeito com a festa.”

Ou quando, no início do quinto capítulo, introduz Sir William Lucas, recorrendo à linguagem ou à perspetiva do próprio personagem:

“Sir William Lucas tivera em tempos negócios em Meryton, onde amassara uma fortuna razoável, e ascendera ao grau de cavaleiro através de uma petição ao rei, durante o seu mandato como provedor do concelho. A distinção subiu-lhe um pouco à cabeça, causando-lhe uma repentina aversão pelos negócios e pela sua residência numa vila mercantil; razão pela qual abandonou ambos, negócios e residência, e se mudou com a família para uma casa a cerca de uma milha de Meryton, que passou a ser conhecida como Lucas Lodge. Aqui, Sir William pôde dedicar-se a refletir com prazer na sua própria eminência e a mostrar-se, agora que estava livre dos negócios, cortês com toda a gente.”

Já em Charles Dickens, que nasceu poucos anos antes da morte de Austen, tudo me parece mais infantil (desde logo, os jogos de palavras ou as personagens caricaturais), mas não menos profundo. A descrição física das personagens ganha relevo e a ironia é menos azeda – estamos já mais próximos de Monty Python do que de Ricky Gervais. Vejamos a forma como é apresentada, no segundo capítulo, a irmã de Pip, o protagonista de Grandes Esperanças, nas palavras do próprio:

“A minha irmã, a Sra. Joe, com o seu cabelo e olhos negros, tinha sempre uma pele tão rubra que por vezes fazia-me ponderar a possibilidade de ela se lavar com um ralador de noz-moscada em vez de se servir de uma barra de sabão. Era uma mulher alta e de aparência ossuda, e andava quase sempre com um avental de material grosseiro à cintura, que cingia com dois laços atrás das costas, e um peitilho quadrado e invariavelmente imaculado à frente, repleto de agulhas e alfinetes cravados. O uso continuado deste avental representava para si um valoroso ponto de honra, ao passo que servia também de forma de censura apontada à pessoa de Joe. A verdade é que nunca vi razão para que ela se decidisse sequer a usá-lo, ou, já que se decidira pelo seu uso, não descortinava motivo algum para que não o tirasse todos os dias.”

Ou a descrição do Sr. Wemmick, no segundo capítulo do segundo volume:

“A sua boca assemelhava-se de tal modo à estreita abertura de um marco de correio que, mesmo quando inerte, parecia abarcar um sorriso mecânico.”

Ao longo do livro, o narrador vai recorrendo a esta imagem – por exemplo, quando o Sr. Wemmick come, é-nos dito não que coloca a comida na boca, mas sim na tal estreita abertura do marco de correio.

Em Austen, sinto que estou a ver o mundo na perspetiva de um adulto bem formado e muito inteligente que (felizmente) usa e abusa da ironia, por não se conseguir conformar com aquilo que vê. Em Dickens, fico com a ideia de que estou perante o equivalente a um extraordinário filme de desenhos animados para adultos, como Coco ou Soul, em que o recurso à caricatura, à metáfora e ao exagero é o mecanismo que permite mostrar-nos algo tão profundo e tão real como a própria vida.


Escrito por Tiago Gonçalves

Nota: Usei como referência as edições de Orgulho e Preconceito e de Grandes Esperanças da Relógio D´Água, com traduções, respetivamente, de José Miguel Silva e de Frederico Pedreira.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Exercício em aula — Texto em bruto

 Uma Folha Sem Nome

Num dia raivoso, em que as árvores se abanavam todas e o mar quebrava em ondas, uma pequena folha está em risco de cair.

Esta pequena folha não tem nome, pois claro, mas não pelas razões que acham. Ela podia muito bem ter um nome, se não fosse pela tragédia de há apenas dois dias: uma grande trovoada soprara e levara os amigos e família da pequena folha.

Acabadinha de nascer, a nossa amiga vê-se sem pais, sozinha e desamparada. E assim começa a nossa história.

Voltemos ao presente. A pequena folha treme, tirita, e agita-se, como se estivesse a fazer a dança do vento. Ainda é nova neste mundo tão cruel, sente-se assustada e impotente. Do nada, algo lhe toca, grosso e cheio de calos, como o tronco de uma árvore, mas mais plano e macio. Surpresa com esta novidade estranha, a pequena folha sente uma dor e solidão inesperada. Triste, a pequena folha desmaia.

Quando acorda, a pequena folha não sabe onde está. Tudo lhe é desconhecido e curioso. Já não treme, nem tirita, nem se agita, porque o ar não é fresco nem bravo, mas pesado. Não se consegue mexer, sente-se pegajosa e presa. Agora no escuro, a pequena folha reúne-se com todos os que a deixaram sozinha, e solta um único suspiro agridoce.

Exercício 12- 3 vozes na literatura

Recentemente, decidi aventurar-me pela magnum opus do Victor Hugo, Os Miseráveis. Uma passagem em particular comoveu-me de uma maneira que nem tudo consegue:

“Agora, o que sucedera?

Escorregou, caiu, e foi-se.

Está na imensidão das águas. Debaixo dos pés, já só tem algo que foge e que se desmorona. As ondas rasgadas e picadas pelo vento cercam-no horrorosamente; as oscilações do abismo arrastam-no, todos os farrapos de água se agitam em torno da sua cabeça; um montão de vagas cospe-lhe em cima, enquanto confusas cavidades devoram metade dele; cada vez que mergulha, vislumbra precipícios repletos de noite, e sente-se preso por medonhas vegetações desconhecidas que lhe atam os pés e o puxam para elas; sente que se torna abismo, que faz parte da espuma, que as ondas o lançam de uma para a outra; bebe amargura; o cobarde oceano obstina-se em afogá-lo, e a enormidade brinca com a sua agonia. É como se toda esta água fosse ódio.” (p. 92)

Com Victor Hugo, não existe propriamente um crescendo, é tudo extremos constantes, acentuados e quase ruidosos, de uma forma impactante. A escrita dele não é excessiva, mas apela à humanidade de cada um dos seus leitores. No pequeno excerto que inseri aqui, Hugo apresenta uma grande talento para linguagem imagética; mesmo que não possamos identificar-nos com a situação específica que está a ser representada, somos arrebatados por emoções guturais, tão profundas como se fôssemos o sujeito em sofrimento. Não há dúvidas do que ele nos quer fazer sentir.

P.S. Li a edição da Relógio D'Água, para referência. A citação encontra-se no primeiro volume.


Um dos primeiros livros que li este ano foi The Dud Avocado de Elaine Dundy. Pode não ser uma autora famosa e de grande renome, mas creio que, se uma voz mostra ser tão distinta quanto a que se encontra neste livro, deve-se dar a conhecer. Nunca tinha ouvido falar nem da autora nem do livro até entrar numa Waterstones e os meus olhos verem-se magnetizados pela capa, tão chamativa e cheia de cores berrantes (coloco aqui a imagem).


Pensei para mim mesma "Será que o interior é tão divertido quanto o exterior?". E assim, apesar de já terminar a minha viagem com mais livros do que neurónios, percebi que seria impossível sair de lá sem o comprar e ver por mim mesma. É difícil conseguir capturar a voz de uma autora que apenas se leu uma vez, e, no entanto, a dela é tão expressiva e notável (neste livro, especificamente) que acabamos por sentir que já lemos tudo o que precisamos de ler para conhecermos as idiossincrasias e maquinações da mente (ou forma/estilo) da autora. Adorei a forma como a Dundy criou uma personagem tão carismática e simultaneamente frustrante, colocando-a num ambiente fascinante de transformação constante. Poderia-se fazer em certos pontos uma comparação com The Great Gatsby, quer seja pela atmosfera muitas vezes frenética e aliciante, ou pela protagonista, que navega caoticamente pela vida, neste caso pelas ruas de Paris (e não só); fora isto, é uma obra principalmente cómica, com um espírito crítico e mordaz. Sentimo-nos os confidentes de Sally Jay Gorce, precisamente porque Dundy faz com que o tom do livro pareça o de uma amiga a desabafar e mexericar connosco; é uma escrita muitas vezes exagerada e romantizada, perfeitamente alinhada com o tema de bildungsroman que emerge com as aventuras e desventuras da nossa narradora/protagonista. Elaine Dundy é uma autora que mais pessoas deveriam conhecer, recomendo! Para responder o mais diretamente à minha pergunta inicial— sim, absolutamente.




Por último, J. R. R. Tolkien é um autor que eu admiro muito, especialmente o seu estilo descritivo e a maneira como ele consegue elevar as coisas mais simples. Por exemplo, este pequeno excerto de The Lord of the Rings: The Two Towers:

"Drawing a deep breath they passed inside. In a few steps they were in utter and impenetrable dark. Not since the lightless passages of Moria had Frodo or Sam known such darkness, and if possible here it was deeper and denser. There, there were airs moving, and echoes, and a sense of space. Here the air was still, stagnant, heavy, and sound fell dead. They walked as it were in a black vapour wrought of veritable darkness itself that, as it was breathed, brought blindness not only to the eyes but to the mind, so that even the memory of colours and of forms and of any light faded out of thought. Night always had been, and always would be, and night was all." (p. 720)

Tolkien claramente acredita que a linguagem serve para conscientizar o poder imaginativo do leitor, gerar um reconhecimento e sensação espacial de um mundo fictício (mas em muitos aspetos semelhante ao nosso); para ele, a escrita e a linguagem literária são um ofício de adoração e grandiosidade. A escrita dele cria um padrão narrativo convidativo, sujeito à proatividade do leitor em entender a linguagem rica e cheia de metáforas que ele usa. Essencialmente, Tolkien procura sempre oferecer uma experiência sensorial total.




"A Tempestade" - texto reeditado

    Eram quatro da manhã quando acordei sobressaltada com a tempestade. Levantei-me silenciosamente para ir buscar um copo de água, tentando não acordar Mariana, que dormia profundamente. O temporal agravava-se e, para lá da janela da cozinha, a rua mostrava-se negra, sendo visível apenas uma pequena luz vermelha que piscava numa casa mal iluminada.
    Acendi a luz do exaustor e enchi o copo com água. Do canto do olho continuava a ver a luz vermelha, persistente e cada vez mais forte. Ou talvez fosse apenas impressão minha, induzida pelo sono.
    Mal o pensei, e sem qualquer aviso, os meus ouvidos estalaram com um som ensurdecedor e tudo o que via era penumbra. Pensei ter sido atingida por uma bomba, tamanho o estrondo que senti. Fiquei completamente desorientada. O meu primeiro instinto foi chamar por Mariana, mas, para minha surpresa, não obtive resposta alguma. Talvez ainda estivesse a dormir. Uma parte da minha mente tentava convencer-se de que era só isso. Ela ainda estava a dormir.
    Rodeada pela escuridão, tentei guiar-me pela casa - que já me era tão familiar - de braços esticados e passos cuidadosos, à procura de uma cadeira onde me pudesse sentar e descansar. É um apagão, pensei. Que mais poderia ser? Mas ao continuar por um corredor aparentemente interminável, apercebi-me de algo.

    Não sei onde estou.

    A minha voz resiste ao ímpeto de a calar, apavorada pela ideia de ser ouvida por um perigo iminente. Pergunto por alguém, imploro a presença de um outro. E, assim que o pedi, ele apareceu.
    Começo a fazer-lhe perguntas, mas sei que já não estou a ser coerente. Não percebo de onde é que ele veio, ou onde estamos. E o que é feito de Mariana? Sem dizer uma palavra ele vai-se aproximando e já não consigo conter as lágrimas. Tento afastá-lo, mas os seus olhos rubros prendem-me ao chão.

    Foi assim que aprendi a não desejar o que desconheço.

Exercício 11 - Tradução do poema "Drinking While Driving", de Raymond Carver

Estamos em agosto e não

leio um livro há seis meses

excepto um chamado The Retreat from Moscow

do Caulaincourt.

No entanto, estou feliz

a conduzir com o meu irmão

e a beber uma caneca de Old Crow.

Não temos nenhum lugar em mente para onde ir,

estamos somente a conduzir.

Se eu fechasse os olhos por um minuto

perdia-me, porém

podia simplesmente deitar-me e dormir para sempre

ao lado desta estrada

O meu irmão abana-me suavemente.

A qualquer momento, algo irá acontecer.



Exercício 16 - Tradução de um poema

 别编造 Bié biānzào


别再胡说八道。别编造。   

Bié zài húshuō bādào. Bié biānzào.

别看着我的眼晴。走开。    

Bié kànzhe wǒ de yǎn qíng. Zǒu kāi.

少来那套花言巧语            

Shǎo lái nà tào huāyánqiǎoyǔ

和假惺惺的告别。别闹了。 

hé jiǎxīngxīng de gàobié. Bié nàole.

 

别道歉,别说人生               

Bié dàoqiàn, bié shuō rénshēng

不过如此:一切都会被忘掉。

bùguò rúcǐ: Yīqiè dōu huì bèi wàngdiào.

世界和时间会抚平一切。

Shìjiè hé shíjiān huì fǔ píng yīqiè.

我再说,亲爱的:滚。

Wǒ zàishuō, qīn'ài de: Gǔn. 


那随便你拿着我们曾

Nà suíbiàn nǐ názhe wǒmen céng

以为分享的所有吧:

yǐwéi fēnxiǎng de suǒyǒu ba:

书,那些帕罗桑托雕塑,

Shū, nàxiē pà luó sāng tuō diāosù,

唱片,画像,台球桌。

chàngpiàn, huàxiàng, táiqiú zhuō. 


别留下地址。拜托你:

Bié liú xià dìzhǐ. Bàituō nǐ:

滚你的蛋吧,亲爱的。

Gǔn nǐ de dàn ba, qīn'ài de.


Nota de tradução (ou fun fact): os insultos em mandarim recorrem na grande maioria das vezes ao clássico "a tua mãe", um dos ragebaits mais eficazes, em vez da nossa tendência para dar direções concretas ao indivíduo. Neste caso, optei pelo termo mais parecido que conheço, "滚" (gǔn), literalmente "rebolar" -> rebola-te daqui para fora -> vai-te foder. Podendo não nos parecer, este termo tem praticamente o mesmo impacto porque é a forma mais indelicada de mandar alguém desaparecer, excetuando a expressão 肏你祖宗十八代 (que se fodam os teus antepassados até às dezoito gerações), que já achei um bocadinho nuclear demais. 


Exercício 15: história triste em três palavras

  —  Agora só amanhã.