Ler Virginia Woolf hoje
Um livro que li e que me deixou marcas pela sua voz foi Um Quarto Só Seu, de Virginia Woolf. Quase me sinto envergonhada de admitir que só li este livro no verão passado – era um livro para ser lido e servir de guia enquanto fosse ainda jovem. E digo isto porque Virginia tem uma voz poderosa neste ensaio – imperativa e provocadora – que me fez pensar e agir. Antes tarde que nunca, aplica-se aqui na perfeição.
Já a razão da escolha deste livro para o exercício proposto em aula é mais utilitária: preguiça! O livro está todo anotado da minha leitura, logo é um processo muito simples de copy-paste das anotações para o ficheiro Word. Tenho sublinhados, notas ao lado do texto e até páginas escritas com ações a tomar, propostas de recolha de informação sobre mulheres escritoras, o seu papel na literatura, uma cronologia e até uma ideia para um conto.
A premissa de Virginia para a escrita deste ensaio (que penso ser válida ainda hoje): uma mulher tem de ter dinheiro e um quarto só seu para escrever ficção (sublinhado da página 4).
Se a mãe de Mary Seton lhe tivesse deixado dinheiro, poderiam aquelas duas mulheres escritoras sentar-se à mesa e falar sobre arqueologia, botânica, antropologia, física, matemática. Hoje, mantemos a mesma lógica: ainda temos de gastar tempo a defender os direitos da mulher, quando poderíamos estar a debater temas muito mais interessantes e prementes.
Mas se a mãe de Mary tivesse trabalhado para amealhar dinheiro, provavelmente Mary não teria nascido – uma mulher trabalhadora não tem tempo para os filhos, pois apenas a mulher, a mãe está lá para os criar, para tomar conta da família.
Ao homem cabe uma contribuição biológica pontual e uma contribuição financeira regular. À mulher, o melhor papel: um investimento contínuo em tempo, paciência, carinho e disponibilidade, podendo perfeitamente descurar o seu papel profissional pelo bem maior. (pp. 31–32).
Diz Virginia que Napoleão e Mussolini insistiram na inferioridade das mulheres, pois se elas não fossem inferiores, deixariam de engrandecê-los (p. 53). Ora já diz a sabedoria popular que por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher. Sábia o suficiente para saber que se deve apagar em prol do brilho masculino. Pois que, com o mesmo trabalho, o homem tem muito maior reconhecimento.
Convenhamos: o sucesso masculino tende a pacificar o ambiente doméstico, para além de o enriquecer. Válido então para todas as mulheres que não queiram ser escritoras. Para essas, defende Virginia, a emancipação financeira é condição necessária para a emancipação intelectual.
Mas os argumentos usados por Woolf seriam válidos no tempo dela, e não se aplicam já à atualidade: as leis da herança mudaram e tratam os herdeiros todos por igual, independentemente do seu género; as empresas pagam exatamente o mesmo a homens e mulheres; o sexo feminino não é sobrecarregado com trabalho informal não remunerado; o assédio é praticamente uma relíquia arqueológica; as mulheres têm o mesmo nível de acesso à educação e a cargos políticos e estão igualmente representadas na literatura.
Mais: hoje, a escrita de grandes livros é tão provável ter origem numa voz feminina ou masculina. Vejamos o exemplo que Virginia nos dá: teria Tolstói conseguido escrever Guerra e Paz, se vivesse em casa, recluso com uma mulher casada, isolado do mundo? Dificilmente! (p. 106).
Porque em tempos idos, a mulher não tinha liberdade para “viver livremente com esta cigana ou com aquela grande senhora; ir a guerras; colher, sem peias nem censura, toda a variegada experiência da vida humana para mais tarde usar” na sua escrita. Felizmente – dirão alguns – those days are gone, e mulheres que viajam sozinhas raramente são importunadas ou se sentem em perigo.
E é fácil, depois da recolha de informação, a mulher isolar-se num quarto só seu, a escrever. A transformar essa experiência em palavras, num espaço privado onde não seja interrompida e possa trabalhar em continuidade. Quem sabe se o título atualizado não seria: Uma Cozinha Só Sua – um território muito mais reservado, onde raramente a mulher é interrompida.
Se sentem a minha voz irritada e irónica, é porque traduzi bem o espírito de Virginia na escrita deste ensaio. Bem, como eu a li; a intenção dela, só ela a sabe. Felizmente, moro com três homens que discordam totalmente do texto que escrevi: em casa, as tarefas são partilhadas, as conversas são sobre a atualidade e os êxitos são comuns. Mas também: um escolhi-o eu, e os outros fiz questão de os educar.