terça-feira, 14 de abril de 2026

Um erro mortal, uma regra a saltar e bons exemplos (Exercício 13)


Um erro mortal: gralhas na capa

Podemos ver uma primeira edição do primeiro volume dos contos completos de Bulgakov, Garganta de Aço, publicada pela Eprimatur. No canto inferior direito, podem ver na imagem ampliada "Brilahnte" no lugar de "Brilhante". Podemos confirmar: não é brilhante. Mais ainda, tendo em conta a frágil credibilidade que qualquer tradução direta de línguas como o russo já tem à partida (exceptuando casos já consagrados, como as dos Guerra ou António Pescada), esta gralha na capa é um péssimo cartão de visita. Pelo que vejo no site, a editora ainda não corrigiu.




Segundo erro: capas com frames de filmes

Não há muito para dizer, é o que o título diz. É o caso da edição de Doutor Jivago de Pasternak, publicado pela Sextante Editora, com a devida menção do tradutor na capa, António Pescada, e do Nobel do autor. Tudo certo, mas…. Porquê um frame do filme com a cara do Omar Sharif na capa? Não sou suspeito, adoro David Lean, mas, por favor, não na capa dos meus livros. 



Não é de admirar que tenhamos metade dos nossos conhecidos a comentar "gostei mais do livro". Cúmulo dos cúmulos, ouvi um conhecido dizer isto aquando da saída do filme da Anna Karénina (2012). Ia morrendo.


Primeiro exemplo: usar frames de filmes

Todo o exemplo tem o seu contraexemplo. É a natural: a luz tem a treva; o yin, o yang; o bom tem o mau; o belo, o feio e por aí fora... seleciono um livro que me pareceu especialmente bem conseguido e que usa um frame do O Sétimo Selo (1957). Trata-se da biografia de Ingmar Bergman escrita por Peter Cowey, publicada pela britânica Faber & Faber, chamada God and the Devil. Em certos contextos, não devemos só saltar sobre o exemplo, mas ir mesmo contra ele. Este é um deles:



Segundo exemplo: aproveitar capas de/em coleções ou volumes

As capas dos dois volumes do Segundo Sexo de Simone Beauvoir da Quetzal fazem claro o argumento. A editora, no bom gosto que caracteriza as suas capas, acertou em cheio. Além do que o conteúdo do I volume motiva no leitor, a capa do II dá um motivo extra para ser comprado. Pela positiva, são escolhas editoriais como esta que tornam obras já publicadas há décadas novos e verdadeiros hinos ao colecionismo.



Terceiro exemplo: timing e design

Edição da Antígona (2007)

A edição de 2007 de 1984 da Antígona é, a meu ver, um excelente exemplo de timing e de design. Como podemos ver neste link e em qualquer site internacional de retalho livreiro, a ideia do olho na capa de 1984 não é mundialmente original desta editora, mas é original em Portugal. A Antígona chegou primeiro, tudo o que veio depois são cópias, independentemente de serem enriquecidas com excelentes ilustrações do Vhils ou com prefácios do Gonçalo M Tavares:

Edição da Relógio D'Água (2021)


Edição da D. Quixote (2021)


Clássica Editora (2021)


Clube do Autor (2021)


Porto Editora (2021)

O design da Antígona, simples e marcante, é excelente e alimentou todas as restantes publicações da obra do Orwell na editora. Um exemplo português de uma editora que acertou em cheio (e com força) no alvo.


A título de curiosidade, partilho convosco o caso da edição inglesa da Penguin, que escapa, de forma verdadeiramente brilahnte, à norma deontológica ocular que as capas de 1984 têm assumido no mundo:



Quarto exemplo: a capa como geradora de coleções artificiais

Segue este último exemplo da publicação de Cidade na Planície (e dos restantes títulos) de Cormac McCarthy, pela Relógio D'Água. Tratando-se da única editora responsável, ao que sei, pela publicação da obra deste autor em Portugal, sem se desviar do seu design tradicional, a Relógio D'Água criou uma espécie de "mini coleção" de um só autor dentro do seu catálogo. Fez isto aliando um autor a um mesmo tipo de design e um único tradutor. O nome do tradutor, Paulo Faria, também é justamente destacado na capa. Isto não só pela qualidade de outras traduções suas (como o A Quinta dos Animais de Orwell, pela Antígona, em fotografia acima), mas também pelo seu envolvimento aprofundado com a tradução da obra de McCarthy, tendo inclusive afirmado em entrevista ter falado com o autor diretamente a propósito da sua obra e de questões da sua tradução.



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