sábado, 20 de dezembro de 2025
sábado, 13 de dezembro de 2025
Sugestão para o fim de semana
Boa tarde, colegas e professor.
Quero aproveitar os últimos cartuchos do nosso blog para vos sugerir que vejam (ou ouçam) o novo episódio do Alta Definição, que corresponde à entrevista a João Miguel Tavares. Para além de ser um alumnus da FCSH, é também uma pessoa muito interessante. A sua biblioteca doméstica é admirável (e as imagens da mesma foram o que me agarraram, realmente, a este episódio).
Fica a recomendação. Bom fim de semana a todos.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2025
Relatório de lançamento de um livro
No passado dia 25 de novembro estive presente no lançamento do livro A ordem reina sobre Lisboa - Uma história do 25 de Novembro, de Ricardo Noronha, publicado pela Tigre de Papel. A sessão deu-se na livraria que o editou e foi apresentada por Luís Trindade, António Louçã e pelo autor.
O lançamento começou com uma descrição e pequeno resumo do livro pelos historiadores Luís Trindade e António Louçã, complementada da leitura de algumas passagens e explicação da base do livro, para dar azo ao debate no final. Destaco a parte em que Luís Trindade fala sobre o que não aconteceu no 25 de novembro - e como a sua "história" se deve mais às consequências do que foi feito antes (ou até essa data), e não ao dia propriamente dito.
Passada a palavra ao autor, Ricardo Noronha, ele explicou a ideia por detrás da obra e o seu processo de escrita: como procurou conciliar a escrita historiográfica com a sua ambição de criar uma narrativa ao estilo ficcional - lírica e cinematográfica.
Por fim, deu-se a vez do público pôr as suas questões ao autor, o que acabou por ser mais uma conversa e discussão sobre diferentes situações relativas ao 25 de novembro, como por exemplo, a forma como em poucos anos esta data tem sido usada pela extrema-direita como forma de propagandear o seu discurso (o tal tiraram os comunistas do poder e conseguiram estabelecer a democracia), sendo que durante anos ela nem era referida; o papel dos Estados Unidos no que foi o 25 de novembro, algo que o autor referiu não estar relatado ao detalhe no seu livro, mas que é abordado; e também, uma troca de ideias sobre a forma de como este momento histórico é contado actualmente (uma vez que há tantos livros escritos sobre ele e que continuam a ser publicados - tal como este).
Eu tive imenso gosto em assistir a este lançamento, o ambiente foi bastante acolhedor e informal, e os oradores foram os três bastante cativantes.
Sobre a livraria, a Tigre-de-Papel, recomendo muito lá passarem se ainda não tiverem tido oportunidade. Antes mesmo de entrarmos no espaço temos à porta várias caixas com livros em inglês e a preços baixos (alguns pareciam usados, mas não sei se eram todos). Dentro da livraria estão à disposição livros de uma grande variedade de editoras (saí de lá a conhecer umas que não sabia que existiam), e tanto pela montra e exibição dos livros nas estantes percebemos que a sua curadoria é feita pelos livreiros (algo bom das livrarias independentes), o que é uma forma excelente de descobrir livros novos - apesar de só ter comprado o livro que foi apresentado, saí de lá com outras recomendações de livros que, por estarem expostos, me chamaram à atenção.
Nota: A Tigre-de-Papel publica, em formato de podcast, os lançamentos que ocorrem na livraria, para que quem não possa assistir presencialmente tenha acesso de outra forma. Esta sessão já se encontra disponível no site da livraria.
Bárbara Faria.
Sobre a leitura de livros em inglês
Ao longo dos últimos anos tem surgido um aumento no número de livros comprados em inglês, no nosso país. Há múltiplas razões que justifiquem esta situação. Para começar, o uso da internet, já totalmente integrado no nosso dia-a-dia, permite um acesso à vida quotidiana de quem a partilha nas redes sociais que, para quem é leitor, pode consistir na “divulgação” de livros (por simples gosto de mostrar o que estão a ler aos amigos, ou com o intuito de atingir um público geral de leitores, como fazem os bookstagrammers e os booktokers). Isso é uma excelente forma de publicidade ao livro, pois permite apresentá-lo a novos leitores que de outra forma podiam não chegar a ele. Porém, o que o efeito da globalização tecnológica trouxe essencialmente para a área do livro online foi a generalização do livro em inglês. Quem “segue” pessoas que leiam sobretudo em inglês (seja por ser a sua língua materna ou não) estará a ter um contacto em primeira mão de obras escritas nessa língua, podendo por vezes, se tiver interesse em comprar o livro, nem procurar se o mesmo já foi traduzido.
Ainda no tópico das redes sociais, quem decida utilizar uma plataforma digital para partilhar as suas leituras poderá achar propenso falar sobre elas em inglês (o que um pouco inevitavelmente leva a consumir livros em inglês, mesmo que não todos). Essa escolha pode ser para que o seu conteúdo chegue a um maior número de pessoas, enquanto se optasse por comunicar apenas em português a sua audiência seria muito mais restrita.
Uma segunda razão, e possivelmente a primeira que vem à mente quando se aborda este assunto, é o facto de o preço dos livros em inglês ser, no geral, mais barato. Apesar dos seus preços terem vindo a aumentar com os anos, o seu valor continua a ser inferior ao dos livros em português (quando se trata de uma edição “normal”, paperback). Isto leva a que haja uma preferência pelas obras em inglês, mesmo que a diferença de custos seja mínima.
Fugindo ao acto de comprar livros, mas tocando noutro aspecto que tem aumentado - a pirataria. E esta tem aumentado maioritariamente com a afluência dos ebooks (mas não só). Ora, a pirataria é crime, mas não há propriamente forma de impedir o seu uso individual (tirando quando os sites que distribuem esses livros são “levados abaixo”, como foi o caso há uns dois anos da ZLibrary, e que é hoje um serviço de difícil acesso), e existe um número muito maior de livros pirateados em inglês do que em português e que tenham sido editados em Portugal*. Então se se tratar de uma obra editada recentemente é praticamente impossível encontrá-la dessa forma.
*(Não digo apenas em português porque sei de pelo menos um site de livros pirata de edições brasileiras).
Sobre livros publicados recentemente, aproveitando para pegar no final do parágrafo anterior, estes se tiverem sido escritos em inglês e se uma pessoa tiver muito interesse em lê-lo o mais cedo possível, não hesitará em procurá-lo numa livraria que venda livros em inglês ou encomendá-lo online, ou pirateá-lo, ou qualquer outra coisa do que esperar que uma editora portuguesa trabalhe nele.
Por fim, acho que vale a pena também referir que há quem prefira ler os livros na língua em que foram escritos originalmente, se tiverem o conhecimento da língua em questão. Não sei se é um factor muito significativo, mas sei que é uma razão relevante para alguns leitores e não quis deixar de tocar nela.
Após expor todas estas razões quero continuar a acreditar que não iremos ler todos apenas em inglês no futuro. Pode haver muita comunicação mediática em inglês nesta área, mas tal como continuam a surgir cada vez mais novos autores portugueses esses autores têm de ser primeiramente leitores e de ler na sua língua materna, para saberem escrever correctamente nessa língua (assumindo que não pretendam escrever logo em inglês).
Bons incentivos, alguns já em prática, para que não se percam leitores de livros em português:
- Usufruir das bibliotecas - para quem toca sempre no ponto dos preços;
- As feiras dos livros (e diversificação das suas actividades e eventos) que têm vindo a atrair mais gente de ano para ano (este ano a feira do livro do Porto atingiu um novo recorde de visitantes), e que vendem livros publicados principalmente em português;
- Para quem faz conteúdo online sobre livros, as editoras e livrarias devem fazer com que apostem em divulgar os que são editados em Portugal (por exemplo, a Bertrand contacta alguns desses influenciadores para serem seus afiliados, ou seja, ao falarem sobre um livro poderem partilhar o link que vai directo ao site da livraria, para caso alguém o compre através desse link o influenciador possa monetizar da publicidade feita à livraria;
- As editoras devem ter uma forte presença online e divulgar eventos regularmente para que os leitores se interessem pela editora em si, no seu catálogo. Um exemplo destes é a feira de natal da Orfeu e da Antígona (entre outras editoras e livrarias), que vai ter à venda livros danificados a preços muito baratos; assim como a Tinta-da-China que também terá uma semelhante. Ambas ocorrem amanhã, sábado, dia 13.
Este texto surgiu como espécie de resposta a uma das questões do ponto 11.6 da sebenta da cadeira.
Bárbara Faria.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2025
Relatório de um lançamento
Foi o próprio Jorge Reis-Sá que esteve "à conversa" com a autora (não antes de uma breve introdução por Duarte Azinheira, administrador executivo da INCM), até porque são amigos e esta não é a sua primeira colaboração: a primeira, Algumas Letras, foi publicada em 2003, e a segunda, Saga Lusa, em 2008, ambas pela defunta Quasi Edições (também estas obras, apesar de não serem o motivo da ocasião, tiveram direito a dois dedos de conversa). Do seu fascinante diálogo, partilho três assuntos:
Primeiro, o processo de escrita da autora: Adriana Calcanhotto admitiu-o moroso, mas porque ela assim o quer. Destacou a necessidade de, como já referido pelo professor, escrever, parar (e idealmente aproveitar a pausa para fazer algo que nada tenha a ver com a escrita/o assunto sobre o qual escreveu), e só depois (auto-)editar. Para além disso, confessou ter um cuidado redobrado no que diz respeito à sintaxe dos seus versos: o seu objetivo é que cada um tenha o máximo sentido/significado possível, o que implica, por vezes, reescrever e reinterpretar cada palavra — e até mesmo cada sílaba.
Depois, os "gatos e as baratas" da Adília Lopes: Estes bichos, cuja brincadeira fez parte de um dos exercícios que realizámos em aula, integraram também esta apresentação, surgindo em referência a uma entrevista de Ricardo Araújo Pereira à poetisa (sobre a qual recomendo lerem aqui). Jorge Reis-Sá, com medo de "bancar o espertinho" e viver um episódio semelhante, mas curioso quanto à falta de pontuação e existência de capitulares em todos os versos de Adriana Calcanhotto, questionou: Haverá algum motivo por detrás destas decisões, ou serão elas também só "gatos e baratas"? A resposta é não, não são. Tratam-se de estratégias para descomplicar os versos. Quanto a mim, achei esta pergunta muitíssimo interessante. Afinal, qual é o trabalho do editor se não decifrar, ou não, gatos e baratas?
Por último, as influências de Adriana Calcanhotto: São muitas, mas ressalto a própria Adília Lopes e a sua musa** Clarice Lispector, cuja obra A mulher que matou os peixes foi destacada pela cantora como "o livro que mudou a sua vida". Penso que não seja necessário parafrasear demasiado quanto a este assunto; o ponto é que a chave para escrever é ler.
Há muito outros temas que poderia ter aprofundado neste pequeno relatório: a escrita como catarse, por exemplo, ou o facto de alguns dos manuscritos "originais" contemplados no livro Pra Lhe Dizer terem sido, na verdade, forjados à última hora pela autora. É essa uma das vantagens de a relação pessoal e profissional entre editor e autora ser palpável — a conversa fluiu, e, como tal, nenhum dos 45 minutos que durou pareceu em vão. Foi um evento muito agradável e até descontraído, apesar da sua localização já centenária, e um final de tarde muito bem passado.
*("Porque «a letra é um poema e um poema é uma letra», a Plural Letra Poema é um reconhecimento da letra no seu estatuto de poema. As letras que sempre foram música podem agora ser lidas como poemas que são", lê-se no site da Imprensa Nacional)
**Curiosidade: Adriana Calcanhotto não só musicou este poema, como o interpretou, dois dias antes deste evento, na Fundação Calouste Gulbenkian
Beatriz Urbano
quarta-feira, 10 de dezembro de 2025
Profissões nos romances de Emily Henry
Este verão, ao procurar uma leitura leve e romântica para passar o tempo, deparei-me com os livros de Emily Henry (Culpada! Sou daquelas que consome mais livros em inglês que em português…)
O primeiro que li, “Beach Read” ou “Romance de Verão”, cativou a minha atenção por ser um romance entre dois escritores rivais, onde uma autora de romance e um autor de ficção literária trocam de géneros para completarem um desafio.
De seguida li “People We Meet On Vacation”, em português “Pessoas que Conhecemos nas Férias”. O livro segue uma blogger e escritora de artigos sobre viagens, e o seu amigo de longa data que devora livros.
Agarrada pela escrita de Emily Henry, li de seguida “Book Lovers”, ou “Doidos por Livros”. O romance segue a vida da agente literária Nora Stephens depois de conhecer o editor e revisor Charlie Lastra.
Já em “Funny Story” (“Uma Boa História”) conhecemos Daphne Vincent, uma bibliotecária infantil.
O mais recente livro de Emily Henry, “Great Big Beautiful Life”, publicado em abril de 2025, segue a história de dois autores biográficos em competição pela história de uma herdeira famosa.
Numa altura em que aguardava resposta em relação a entrar neste mestrado e que planeava seguir uma careira na indústria editorial, estes livros foram pequenas janelas que me deram acesso, como leitora, a estas profissões que estudamos na cadeira de Teoria da Edição.
Ficam as sugestões para os interessados
terça-feira, 9 de dezembro de 2025
Clara Pinto Correia
Hoje, recebemos a notícia do falecimento da Clara Pinto Correia - uma mulher de muitos talentos, sendo um deles a escrita.
Para quem deseja conhecer as suas obras, partilho-as aqui convosco: https://www.wook.pt/autor/clara-pinto-correia/10392?srsltid=AfmBOootdIJF83bY8awxdouWAE4UKioeKUnWm5XenqWxCw78nsM4IyIC
Inês Marques
Proposta de contracapa
Boa Noite.
Esta é a minha proposta de capa/contracapa de um livro que li este ano. Decidi fazer a minha versão da edição dos Penguin Classics do século XX e tentei colocar as informações que achei mais relevantes na contracapa (como a autora é mais conhecida do que este livro dela em específico, decidi não fazer uma bibliografia da mesma e tentei focar-me na pertinência desta obra em comparação com as outras).
Joana Garcia
O livro no espaço mediático
No outro dia, deparei-me com a página desta revista (felizmente, calhou ser na página da ficha técnica e, por isso, se quiserem mais informações acerca da sua proveniência basta olharem para o fim da página).
Fiquei muito feliz! Vejam só como há muito espaço para os livros! Quer dizer, dividem a página com uma coluna sobre a “Energia em dezembro”, mas tudo bem, certo? Afinal conseguimos ver os livros, certo? Aliás, o seu aspeto. Aliás, as capas. Mas pelo menos os títulos! E os preços! Felizmente, os preços! Porque, afinal, daqui a uns dias o Natal chega e “o livro é sempre uma excelente opção para um presente inesquecível”. “Escolha bem e leia”, mas compre! Definitivamente, compre! Vá ao SHOPPING! Ou tente uma livraria.
domingo, 7 de dezembro de 2025
sexta-feira, 5 de dezembro de 2025
Dificuldades na Tradução de Poesia e Prosa
Reparei que nunca tinha chegado a publicar o exercício de tradução do poema “Late Fragment” e pensei em fazê-lo agora (apesar de ser estupidamente tarde), então vou partilhá-lo em conjunto com partes de uma tradução péssima que fiz para auxiliar uma amiga num trabalho. Para contextualizar, ela está no Mestrado de Tradução e decidiu fazer um estudo sobre traduções humanas em comparação com traduções feitas com inteligência artificial e eu fui a cobaia que ela chamou para fazer a tradução humana. Uma grande falha no carácter do ser humano é achar que por dominar uma língua (ou pensar que domina), será um bom tradutor dessa língua, algo de que padeci e amargamente me arrependo. Devo dizer também que este texto não é para olhinhos sensíveis pela quantidade de vezes que me refiro à IA como clanker. Sim, com hard r.
O poema é mais fácil de mostrar (porque é curto e tenho menos apego
por ele), mas contém exatamente os mesmos erros que vou apontar mais tarde.
Para traduzir textos líricos é impossível não sacrificar a métrica em favor do
conteúdo ou vice-versa e parece sempre que carece da essência do texto original
(uma ótima razão para preferir lê-lo em favor da tradução, quando se conhece a
língua).
Vou colocar aqui o poema novamente para os menos recordados:
“And did you get what
you wanted from this life, even so?
I did.
And what did you want?
To call myself beloved, to feel myself
beloved on the earth.”
Apresentarei agora uma proposta
de tradução:
E conseguiste o que
querias desta vida?
Sim.
E o que querias?
Considerar-me amado;
sentir-me
amado nesta terra.
Algumas decisões tiveram de ser
tomadas para preservar parte da essência do poema. Primeiro, tive de começar
uma frase com a copulativa “e”, o que não é recomendado em português, mas em
poesia “vale tudo”. Depois, ponderei muito sobre o “I did”. Deveria só pegar no
verbo e usá-lo como resposta? Ou um “sim” basta? Pensei que esta última se
encaixasse melhor por se aproximar mais da métrica do poema original. No
entanto, o pior foi traduzir “Call myself beloved,” que para mim é só outra
maneira de dizer “sentir-me amado”, mas não podia dizê-lo duas vezes.
Quanto à tradução de texto em prosa, a coisa é ligeiramente
diferente. Já não se obedece à métrica, mas tem sempre de se manter um certo “tom”
que algumas línguas não permitem alcançar. O romance que ela escolheu foi House
of Salt and Sorrows, de Erin A. Craig, uma vez que não existe tradução em português
europeu (mas há em português do Brasil). Um dos maiores problemas que encontrei
na tradução deste romance foi como o tornar digno de uma nobreza rural (o que
digo já que não aconteceu), mas também me custou manter o tom de mistério e,
claro, evitar falhas lógicas por traduções literais (o que também não
aconteceu).
Não vou apresentar a totalidade de um trabalho de que não me
orgulho (na verdade até repudio), mas traduzi aproximadamente duas páginas A4,
das quais mencionarei apenas pequenos parágrafos.
Antes de mais, é necessário relembrar que o inglês é uma língua
de frases curtas, o que não se traduz bem para o português, onde uma frase
curta é pobre; muito pouco digna da nobreza que o texto pretendia retratar. A
seguinte tradução tem isso em consideração, já que junta através de uma
copulativa “e” duas ideias que no original são separadas por ponto final.
“Pelo menos o salão de baile não desapontava. As
cortinas de veludo, azul-marinho com detalhes prateados, estavam majestosamente
espalhadas pelo salão, a criar cantinhos reservados perfeitos para encontros
românticos. Vistosas flores roxas caíam por pilares canelados e o candelabro
cintilava e luzia, com os seus pingentes de cristal retorcidos e caídos para
formar os braços do polvo dos Thaumas. O centro do candelabro era o corpo, que
refratava a luz de mil velas acesas. Aquele enorme animal cobria metade do
teto.”
Os aspetos terríveis são justamente aqueles de que venho falar,
então, ignorando o facto de que o acento em “Papá” ficou por terra, o pior
deles foi a falha lógica entre dois enunciados. No original, dizia “I glanced
around the ballroom, hoping some of the visitiors had ventured into other parts
of the manor. Hadn’t we greeted more people than this? The hall, which could
easily hold three hundred people, felt half full”, então a minha tradução foi:
“Olhei à volta do salão de baile, na esperança de que
alguns visitantes se tivessem aventurado para outras partes da mansão. Não
tínhamos cumprimentado mais pessoas do que estas? O corredor, que poderia
facilmente comportar trezentas pessoas, parecia quase cheio.”
O problema principal é que o texto original parece dúbio. Na
minha primeira leitura, o “hall” era onde estavam os convidados todos no início;
os tais convidados que elas teriam cumprimentado quase eternamente. No entanto,
também faz sentido que se tratasse da quantidade de pessoas no momento presente,
já que ela esperava que eles tivessem ido explorar outros cantos da mansão e
era por isso que não estavam ali. Desta forma, acredito que as duas opções pudessem
existir em simultâneo, mas penso que a mais correta seria a de que estava “quase
vazio”, então vou assumir a minha derrota. Clanker-1, Adriana-0.
Quanto ao tom de nobreza, esse desaparece logo quando me refiro à
esposa do Papá (o Duque de Salann) como “a minha mulher”. De facto, utilizar “mulher”
para traduzir “wife” não é descabido, mas no contexto soa mal. Da mesma forma
que frases depois traduzo “kissed the tips of the woman’s fingers” como “beijou
as pontas dos dedos da mulher”, quando talvez “senhora” tivesse sido mais bonito.
Contudo, não vou dar este ponto ao clanker porque a culpa foi da autora
e não minha; ela que escrevesse “lady”.
Outra questão desastrosa foi a tradução literal das palavras em
vez de considerar o contexto em que elas se inserem, mas isso também o fez o clanker.
Por isso, mesmo que me tire pontos também não lhos dá.
No geral, deve de ser assim que os tradutores se sentem: a ler
algo que não têm vontade às duas da madrugada acompanhados de cansaço e café, a
relembrar-se constantemente de que têm mais trabalho no dia a seguir. Devo
dizer que começo a respeitar mais os tradutores porque me pareceu um trabalho
mais maçante e duradouro do que o de revisão. Fica aqui escrito também que não
vou perdoar a minha amiga por ter mexido numa frase do meu texto e retirado um
artigo que fazia falta. Logo eu, que costumo ter cuidado para não passar
vergonhas desnecessárias.
(Esta última frase fica sem efeito se encontrarem alguma gralha.)
As casas do futuro terão livros?
Há umas semanas atrás, apareceu-me um vídeo de uma "influencer" nas redes sociais no qual mostrava a decoração que tinha comprado para a sua nova casa. Entre os vários objetos, mostrou umas caixas de cartão, vendidas pela Temu, que se montavam e ficavam tal e qual com o aspeto de uma pilha de livros. Quem olhasse para as caixas nunca diria que não eram livros até os tentar abrir. Satisfeita com aquele achado, colocou as caixas de cartão numa estante, por sinal repleta de jarras e estatuetas, mas sem qualquer livro exposto, e declarou que compraria mais no futuro para outro canto da casa.
Por muito que os verdadeiros leitores sejam cada vez menos, a ideia do livro enquanto objeto de valor e de ostentação parece manter-se viva (e em moldes cada vez mais bizarros como este). As pessoas gostam do aspeto estético do livro e ainda mais da ideia associada a quem os tem. As lojas de decoração vendem livros em capa dura, de aparência luxuosa e preço exorbitante para usar como centros de mesa; ter uma vasta coleção de livros expostos em casa continua a ser sinal de superioridade intelectual.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2025
Uma nova livraria e uma feira
Bom dia! Queria apenas partilhar convosco uma nova livraria e espaço cultural, com livros novos e usados, que nasceu no Bairro Alto - a livraria Utopia 111. Ainda não tive oportunidade de a visitar, mas tenciono em breve.
Ela também estará presente na Feira de Natal organizada pela Antígona e Orfeu (com mais outras editoras), e que se dará no fim de semana logo a seguir à feira de livros independentes na nossa faculdade.
Fica aqui o instagram da livraria e as informações da feira.
Bárbara Faria.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2025
Ler um livro em papel é um luxo, e possuí-lo ainda mais.
Citando um parágrafo da página 69 da nossa sebenta, "O lado bom é que nós, os privelegiados que ainda apanhamos os restos de um tempo menos nómada, podemos enfim perceber que ler um livro em papel é um luxo, e possuí-lo ainda mais."
E não poderia concordar mais, ao longo dos anos sempre me foi dito que era um desperdício de dinheiro e espaço, no entanto, traz-me uma grande felicidade todos os dias chegar ao meu quarto e ver a minha pequena coleção e investimento, tanto do meu dinheiro como do meu tempo a ler cada uma destas histórias. Deixo anexado o meu pequeno luxo.
Explorando um pouco a pontuação experimental
Boa tarde a todos. Enquanto navegava as redes sociais, deparei-me com esta publicação sobre pontuação experimental/obsoleta que me intrigou. Considerando as aulas que passámos a sinalizar textos, pensei que deveria partilhar esta forma inovadora de o fazer.
Senti-me inspirada para aplicar esta pontuação, e imediatamente pensei em Inglourious Basterds (2009) e especificamente em Hans Landa, que utiliza uma cordialidade performativa para ocultar o seu pleno conhecimento de tudo o que acontece no filme. Nesta cena, marcada pelo alto nível de tensão, Landa provoca os quatro espiões americanos disfarçados como um gato manipula a sua presa, mascarando a ironia implícita da situação com esta cordialidade típica. O link, para acompanharem a cena: https://www.youtube.com/watch?v=rq7qm3T3cPE
Não me foi possível encontrar todos os sinais de forma copiável, pelo que ficaram marcados por parênteses retos.
Landa: So what’s happened to your lovely leg [Question comma] A by-product of kicking ass in the German cinema, no doubt⸮
von Hammersmark: Save your flattery, you old dog. I know too many of your old conquests to fall into that honey pot[Friendly period]
Landa: Seriously, what happened?
von Hammersmark: Well, I tried my hand, foolishly I might add… at mountain climbing. And this is the result.
Landa: Mountain climbing
That’s how you injured your leg – mountain climbing⸮
von Hammersmark: Believe it or not, yes it is.
[pausa para riso maníaco]
Landa: Forgive me, fräulein. I don’t mean to laugh at your misfortune. It is just – mountain climbing‽ I am curious, fräulein, what could have ever compelled you to undertake such a foolhardy endeavor![]()
von Hammersmark: Well, I shan’t be doing it again, I can tell you that.
Landa: That cast looks as fresh as my old Uncle Gustav. When were you climbing this mountain, last night⸮
Deixo também aqui o link de um artigo publicado pela BBC contextualizando a elaboração de alguns destes sinais de pontuação. É bastante sucinto, recomendo a leitura para quem esteja interessado.
https://www.bbc.co.uk/bitesize/articles/zmyhfdm
Catarina Ricardo
Exercício - Criação da capa de um livro
Como fiz um livro para uma das cadeiras deste semestre, achei que seria interessante partilhar convosco a capa que criei. (disclaimer, o isbn é obviamente falso porque não tenho 30€ para mandar criar um verdadeiro)
terça-feira, 2 de dezembro de 2025
Aula 12/11/2025
Boa tarde. Estive para aqui um bocadinho a ler as vossas recentes contribuições para o blog (já agora, obrigada a todos que partilham artigos e escrevem sobre experiências interessantes) e reparei que ninguém partilhou um sumário da aula de dia 12, pelo que juntei os meus apontamentos para fazê-lo caso seja útil a alguém.
Aqui estão as principais ideias discutidas:
Novas problemáticas que vão surgindo ao longo do tempo, associadas à tecnologia:
- o Zoom;
- a inteligência artificial;
- novas plataformas (como o substack, já mencionado anteriormente).
O poderio dos grandes
- A diferença entre editoras e chancelas.
- Será o destino de todas as pequenas editoras acabarem por ser compradas por grupos maiores?
- Gestão de riscos e lucros.
Reimpressão vs nova edição, qual a diferença?
O editor como copiloto, mecânico e elemento que filtra as ideias.
Duas grandes ideias a ter em mente: escutar a música do texto (não se impor) e
simplificar.
Como sabemos se sabemos ler? A importância da discussão e
diálogo entre pares.
Falta de recursos e as suas consequências (pouca atenção
dada a manuscritos, que deveriam idealmente passar por várias mãos).
Diferença entre jornalistas (que valorizam a simplicidade e
a clareza) e amadores (complicam desnecessariamente).
Diana Costa
segunda-feira, 1 de dezembro de 2025
Sumário da aula 26/11/2025
1- S.E.R.
- Simplicidade.
- Economia.
- Rigor.
- A capa tem que ser adequada ao miolo.
- O miolo tem que ter coerência interna em termos de estrutura e critérios de organização.
- Mesmo sendo o elemento mais pequeno do texto tem uma grande importância.
- Assinala as pausas e ritmo na leitura.
- Extensos e marcados pelo espaço em branco considerável antes dos mesmos.
- Mesmo assim, até Saramago teve que utilizar andaimes para construir o seu texto, depois é que os retirou.
- Por norma, um capítulo deve começar na página impar
- Caso o livro tenha pouco conteúdo, pode-se ignorar a regra para não haver demasiadas sequências de páginas em branco
- Todos os negócios precisam de vender.
- Numa primeira publicação tentar vender nem que seja 50 exemplares.
- Amigos, família, vizinhos.
- Cobrir o custo de produção, o resto é lucro.
- Existem vários apoios à tradução, revisão, edição, etc.
- As editoras procuram oportunidades e projetos com esses apoios para tentar reduzir os custos.
- Apesar de Bolsonaro ter destruído os apoios culturais no Brasil, Portugal ganhou com isso.
- Denunciarias o teu vizinho ou amigo à policia? Não, que moral.
- E se a policia apontasse uma arma à tua filha? Sim.
- Nunca dar algo como absoluto.
- Temos a opção de usar ou não, mas usar da um caráter mais oficial à coisa.
- Caso de Raymond Carver, Gordon Lish, violar a ética dos editores
- Há ou não à protestos? Há e Á
- Cowboy rigoroso com as milhas e quilómetros, 10 miles e 16 km.
- Ementas de hospital? Bifana no parto.
- Cartoons
10.3 Momento Jack Nicholson, sebenta, The Shining e final de semestre
Apresentação do livro: Manual de implementação da crise
No dia 29 de novembro, estive em Vila Franca de Xira, na apresentação do livro Manual de implementação da crise de Christophe Sauvage, publicado pela Glaciar Editora.
O evento começou com um breve
discurso da Vereadora da Câmara, Manuela Ralha. Seguiu-se a apresentação do
autor e do seu livro.
Christophe Sauvage é um sociólogo
Francês que, numa das suas crises, decidiu cortar com tudo o que tinha,
despedir-se do seu emprego e vir viver para Portugal. Autor de vários livros na
sua língua materna, escreve agora o seu segundo livro em Português.
Achei curioso como introduziu o
seu livro, caracterizando o ser humano como uma criatura que “age normalmente
entre crises”. Tendo ele próprio, bem como a sociedade, vivido uma série de
crises, decidiu explorar a ideia de “como seria se houvesse uma entidade que
criasse as crises?”.
Contou como o seu processo
criativo acontece, definindo inicialmente o ponto de partida e de chegada do
seu romance. A partir daí, desenvolve ideias, deixando que elas o levem onde
quer chegar. O grande objetivo das suas obras é iniciar novas questões na mente
do seu público, fazê-lo pensar.
Chegou o momento de leitura.
Convidou a sua mulher a ler duas passagens do livro, que se destacaram pelo
sentido de humor e ironia.
Antes do momento de venda e
autógrafos, o autor falou ainda, brevemente, sobre o seu livro anterior Deus
tem medo do escuro, uma série de contos que exploram a imaturidade na idade
adulta.
Confesso que fiquei tão curiosa,
que a minha mãe (que me acompanhou) e eu decidimos comprar os dois livros para
ler e trocar!
Sumário da aula de 26/11/2025
SER: Simplicidade, Economia, Rigor.
Coerência e adequação
- parte gráfica - adequação de uma capa;
- texto - certificarmo-nos de que é coerente.
Edição electrónica
- a abertura de uma obra começa numa página ímpar ou não? - tarefa do paginador;
- erros a ter em atenção para não cometer, e que não são corrigidos automaticamente no word: hifenização das palavras e o uso de travessões quando usados no fim de uma “linha” têm de estar também no início da seguinte.
Saramago e edição
- Exemplo dos livros de Saramago onde os capítulos não estão numerados nem nomeados. Isso corresponde a um processo e escolha de edição posterior à escrita da obra. Saramago certamente teria dado títulos aos seus capítulos para se organizar; e esses, escritos quase sem parágrafos - fazendo o texto parecer como se escrito “de um só fôlego” -, são também trabalhados num processo que não está visível ao leitor. Editar é apagar os pilares essenciais à edificação do livro, fazendo com que o resultado final não resplandeça nem um pouco dessa construção.
NINHARIAS, alguns casos interessantes:
- Caso de Raymond Carver e Gordon Lish (edição criativa) - um bom editor mantém-se anónimo, os louros vão sempre para o autor.
- Traduções literais ao transformar a palavra inglesa para o português, sem usar a tradução correcta [(exemplo: “corporações” de “corporations” (em vez de agências empresariais, por ex.) ou “evidências” de “evidences” (em vez de provas)].
- Um cartoon onde se observa um homem numa ilha deserta a bracejar para um avião, como forma de pedir socorro. No entanto isso não é perceptível para os pilotos que assumem os seus gestos como uma saudação amigável. - Nesta área é essencial haver boa comunicação e clareza entre as partes.
“Regras” de edição (ou “bons princípios para melhores fins”):
- Simplificar.
- Desbastar o texto.
- Usar fôrmas. Poupar no impulso criativo (embora tudo possa ser criativo).
- Quebrar as regras só depois de as aprendermos.
- Fazer perguntas ao texto: quem és?; Para onde vais? (qual é o ponto, a ideia principal? - exercícios de sinopse); Porquê?
- Quantos livros até a edição estar paga?
- Trabalhar com um bom paginador: não encavalitar o texto; não espaçar demais; reler, reler, RELER.
- Contractos. Regras justas. Regras conexas. (Seguir o código direitos autor - SPA).
Criação de uma editora - é uma empresa, o importante é fazer lucro (a menos que o dono da editora tenha viabilidade financeira para não ter de se preocupar com esse assunto)
- nos contratos - quantos livros vão para o editor? a partir desses ele é obrigado a cobrá-los podendo oferecer 30% de desconto de autor;
- normalmente o preço de um livro deve ser 3x ou 5x o custo da produção.
Outros assuntos relevantes:
- Como o valor do livro tem aumentado - o número de alfarrabistas tem vindo a crescer ao longo dos anos, com livros à venda a preços mais caros do que foram vendidos na altura da sua publicação (sobretudo por serem edições que já não existem no mercado comercial);
- Correntes d’Escritas (Póvoa de Varzim), um dos maiores festivais literários em Portugal;
- Atualização da biblioteca;
- Folha de teste - facultativa.
Livraria Stuff Out
Estive recentemente na Livraria Stuff Out que, para além de livros, vende também artigos Vintage.
Um espaço não muito grande, organizado com zonas demarcadas, e algumas particularidades
interessantes.
À entrada, mesmo antes de entrar
na loja, encontram-se algumas caixas com livros diversos, cada um a 2 €.
Passando a porta, deparei-me com
uma mesa central, também ela repleta de livros de vários temas. Aqui são outras
promoções: 1 livro por 5 €, 2 livros por 8 € ou 3 livros por 10 €.
Na entrada, à esquerda, uma
montra com livros, como Face it de Debbie Harry ou Wicked
de Gregory Maguire. Os restantes expositores encontram-se encostados à parede,
à volta do espaço.
Viajando pela livraria, do lado
esquerdo, encontrei um expositor com artigos raros, como livros antigos, e outro
com livros de poesia, música e teatro. Entre este expositor e o seguinte, está
um moral com diversos livros espalhados pela parede, acompanhados por artigos
vintage. Achei tão interessante, que partilho uma imagem convosco! Nessa zona,
ao centro, está uma poltrona, onde se pode sentar e apreciar o
próximo livro que se vai comprar. O expositor seguinte, contém literatura internacional.
Da zona de caixa, olhando para a
direita, estão dois expositores, um com literatura infantil e outro com
literatura traduzida.
Terminei a visita observando a
montra da direita, que expõe vários discos de vinil. Fica a recomendação para
quem queira conhecer um espaço diferente.
Exercício 15: história triste em três palavras
— Agora só amanhã.
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