domingo, 22 de fevereiro de 2026

"Estranhos são os javalis" - em bruto e editado

Estranhos são os javalis - em bruto

A aula de Edição de hoje deveria ter sido igual a todas as outras. Era o início do 2º semestre e tudo parecia calmo. Até que entrei na sala e vi o Professor a fazer o pino. (André)

Tratava-se da exemplificação básica de como é possível ver o mundo de outro ponto de vista. Mas, não se contentando com esse exemplo, decidiu também dançar flamengo em cima da secretária. (Ana)

Não era a primeira vez que me confrontava com algo inusitado em contexto académico. Durante a licenciatura, tive um professor que fazia criação de javalis e que nos chegou a mostrar, na aula de Teoria, alguns dos seus melhores exemplares. (Tiago)

Claro que os javalis não são tão assustadores como chegar a uma aula com um professor que nunca vimos a agir de forma peculiar, mas é uma maneira de perceber que gente estranha há em todo o lado. (Adriana)

A sua forma e elegância a fazer o pino superou em muito a demonstração do flamengo, mas infelizmente deu a todos os presentes uma drasticamente clara vista para os seus macacos do nariz. Esse foi um ponto de vista do mundo que eu preferia ter evitado. (Diana)

Muito rapidamente percebi que não seria um dia com os outros e estava já preparado para tudo. (Inês)

Deitei a mochila ao chão e disse: “vamos lá, então”. Subi para a mesa, pus as mãos no tampo e atirei os pés para o ar. O mundo, agora sim, não era estranho. (André)

Imagino que no futuro, quando contar esta aula a outros, aos meus netos ou aos meus futuros alunos, ninguém vá acreditar ou quem sabe, no futuro todos os professores façam representações absurdas em aula, forma de vencerem e se distinguirem de todas as inteligências artificiais que nos rodeiam. (Ana)

E foi enquanto pensava nisto que, recorrendo à minha estupidez natural, coloquei em causa o que estava a fazer. “Porquê?”, gritei eu ao professor, ainda de cabeça para baixo (eu e ele). “Porquê fazer o pino e não a espargata? Será o primeiro, na sua opinião, esteticamente superior?” (Tiago)

O professor, com o seu ar de homem sábio, apenas sorriu. (Adriana)

- Não, jovem. Mas dessa perspetiva qualquer pessoa baixa já vê. Já com a cabeça ao contrário, só os iluminados e fisicamente habilitados como nós. (Diana)

Gerou-se um enorme burburinho na sala de aula e todos os alunos se levantaram também para experimentar aquela visão abstrata. (Inês)

À medida que o sangue me subia e subia à cabeça, comecei a ver chifres de javali a sair da boca, primeiro, do Professor e, depois, dos meus colegas. Aí percebi: estranhos são os javalis. (André)


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Estranhos são os javalis - editado

A aula de Edição deveria ter sido igual a todas as outras. Era o início do 2º semestre e tudo me parecia calmo até ter entrado na sala e ver o Professor a fazer o pino.

Mostrava à turma como era possível ver o mundo de outro ponto de vista. Não se contentando com o primeiro exemplo, decidiu também dançar flamengo em cima da secretária.

Não era a primeira vez que me confrontava com algo tão inusitado em aula. Na licenciatura, tive um professor que fazia criação de javalis e que nos chegou a mostrar, em aula, alguns dos seus melhores exemplares. Claro, poderão dizer-me que javalis não são tão assustadores como chegar a uma aula em que um professor que nunca vimos está a fazer o pino. Gente estranha, sabia-o, há em todo o lado.

A sua destreza e elegância de pernas para o ar superou em muito a demonstração de flamengo, mas infelizmente deu a todos os presentes uma visão drasticamente clara dos seus macacos do nariz. Esse foi um ponto de vista do mundo que, com certeza, alguns dos meus colegas prefeririam ter evitado.

O dia não seria como os outros e estava já preparado para tudo. Deitei a mochila ao chão e disse: “vamos lá”. Subi para a mesa, pus as mãos no tampo e atirei os pés para o ar. Procurei equilibrar-me e, lentamente, fui abrindo os olhos. O mundo, agora sim, não era estranho.

Imagino que no futuro, quando contar esta aula a outros, ninguém vá acreditar. Quem sabe, no futuro todos os professores façam representações tão ou mais excêntricas em aula. Sempre seria uma forma justa de vencerem todas as inteligências artificiais que nos rodeiam. E foi enquanto pensava nisto que, orgulhoso da minha estupidez natural, pus em causa o que se estava a fazer. “Porquê?”, gritei eu, ainda de cabeça para baixo. “Porquê fazer o pino e não a espargata, Professor? Será o primeiro, na sua opinião, esteticamente superior?”

O Professor com o seu ar sábio apenas sorriu.

- Não, jovem. Mas dessa perspectiva qualquer pessoa baixa vê. Já com a cabeça ao contrário, só os iluminados e fisicamente habilitados como nós vêem.

Estalou um burburinho entre os meus colegas e todos se levantaram para experimentar aquela visão abstrata. Sentia-se o entusiasmo no ar. À medida que o sangue me subia e subia à cabeça, comecei a ver chifres de javali a sair da boca, primeiro, do Professor e, depois, dos meus colegas. Aí, percebi finalmente: estranhos são os javalis.

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