Estranhos são os javalis - em bruto
A aula de Edição de hoje deveria
ter sido igual a todas as outras. Era o início do 2º semestre e tudo parecia
calmo. Até que entrei na sala e vi o Professor a fazer o pino. (André)
Tratava-se da exemplificação
básica de como é possível ver o mundo de outro ponto de vista. Mas, não se
contentando com esse exemplo, decidiu também dançar flamengo em cima da
secretária. (Ana)
Não era a primeira vez que me
confrontava com algo inusitado em contexto académico. Durante a licenciatura,
tive um professor que fazia criação de javalis e que nos chegou a mostrar, na
aula de Teoria, alguns dos seus melhores exemplares. (Tiago)
Claro que os javalis não são tão
assustadores como chegar a uma aula com um professor que nunca vimos a agir de
forma peculiar, mas é uma maneira de perceber que gente estranha há em todo o
lado. (Adriana)
A sua forma e elegância a fazer o
pino superou em muito a demonstração do flamengo, mas infelizmente deu a todos
os presentes uma drasticamente clara vista para os seus macacos do nariz. Esse
foi um ponto de vista do mundo que eu preferia ter evitado. (Diana)
Muito rapidamente percebi que não
seria um dia com os outros e estava já preparado para tudo. (Inês)
Deitei a mochila ao chão e disse:
“vamos lá, então”. Subi para a mesa, pus as mãos no tampo e atirei os pés para
o ar. O mundo, agora sim, não era estranho. (André)
Imagino que no futuro, quando
contar esta aula a outros, aos meus netos ou aos meus futuros alunos, ninguém
vá acreditar ou quem sabe, no futuro todos os professores façam representações
absurdas em aula, forma de vencerem e se distinguirem de todas as inteligências
artificiais que nos rodeiam. (Ana)
E foi enquanto pensava nisto que,
recorrendo à minha estupidez natural, coloquei em causa o que estava a fazer. “Porquê?”,
gritei eu ao professor, ainda de cabeça para baixo (eu e ele). “Porquê fazer o
pino e não a espargata? Será o primeiro, na sua opinião, esteticamente
superior?” (Tiago)
O professor, com o seu ar de
homem sábio, apenas sorriu. (Adriana)
- Não, jovem. Mas dessa
perspetiva qualquer pessoa baixa já vê. Já com a cabeça ao contrário, só os
iluminados e fisicamente habilitados como nós. (Diana)
Gerou-se um enorme burburinho na
sala de aula e todos os alunos se levantaram também para experimentar aquela
visão abstrata. (Inês)
À medida que o sangue me subia e
subia à cabeça, comecei a ver chifres de javali a sair da boca, primeiro, do Professor
e, depois, dos meus colegas. Aí percebi: estranhos são os javalis. (André)
---------------------------
Estranhos são os javalis - editado
A aula de Edição deveria ter sido
igual a todas as outras. Era o início do 2º semestre e tudo me parecia calmo até
ter entrado na sala e ver o Professor a fazer o pino.
Mostrava à turma como era
possível ver o mundo de outro ponto de vista. Não se contentando com o primeiro
exemplo, decidiu também dançar flamengo em cima da secretária.
Não era a primeira vez que me
confrontava com algo tão inusitado em aula. Na licenciatura, tive um professor
que fazia criação de javalis e que nos chegou a mostrar, em aula, alguns dos
seus melhores exemplares. Claro, poderão dizer-me que javalis não são tão
assustadores como chegar a uma aula em que um professor que nunca vimos está a fazer
o pino. Gente estranha, sabia-o, há em todo o lado.
A sua destreza e elegância de pernas
para o ar superou em muito a demonstração de flamengo, mas infelizmente deu a
todos os presentes uma visão drasticamente clara dos seus macacos do nariz.
Esse foi um ponto de vista do mundo que, com certeza, alguns dos meus colegas prefeririam
ter evitado.
O dia não seria como os outros e
estava já preparado para tudo. Deitei a mochila ao chão e disse: “vamos lá”. Subi
para a mesa, pus as mãos no tampo e atirei os pés para o ar. Procurei
equilibrar-me e, lentamente, fui abrindo os olhos. O mundo, agora sim, não era
estranho.
Imagino que no futuro, quando
contar esta aula a outros, ninguém vá acreditar. Quem sabe, no futuro todos os
professores façam representações tão ou mais excêntricas em aula. Sempre seria uma
forma justa de vencerem todas as inteligências artificiais que nos rodeiam. E foi
enquanto pensava nisto que, orgulhoso da minha estupidez natural, pus em causa
o que se estava a fazer. “Porquê?”, gritei eu, ainda de cabeça para baixo. “Porquê
fazer o pino e não a espargata, Professor? Será o primeiro, na sua opinião,
esteticamente superior?”
O Professor com o seu ar sábio apenas
sorriu.
- Não, jovem. Mas dessa perspectiva
qualquer pessoa baixa vê. Já com a cabeça ao contrário, só os iluminados e
fisicamente habilitados como nós vêem.
Estalou um burburinho entre os
meus colegas e todos se levantaram para experimentar aquela visão abstrata. Sentia-se
o entusiasmo no ar. À medida que o sangue me subia e subia à cabeça, comecei a
ver chifres de javali a sair da boca, primeiro, do Professor e, depois, dos
meus colegas. Aí, percebi finalmente: estranhos são os javalis.
Sem comentários:
Enviar um comentário