segunda-feira, 23 de março de 2026

Capas e Contracapas (Exercício 13)


Nunca tinha pensado na importância das capas, contracapas, bandanas e lombadas dos livros. E no entanto, sem dúvida que nos sentimos mais atraídos por este ou aquele design, podendo até ser motivo decisivo de compra. Lembro-me, de repente, de pessoas que organizam os seus livros por cores em vez de autores ou de quem compra livros antigos porque dão um ar nobre à estante. 

Se todos julgamos, mais ou menos, o livro pela capa, então talvez valha a pena olhar para os livros com mais atenção. Foi este o ponto de partida para reunir um conjunto de livros cujas capas adoro — e outras que nem por isso. 



Começo por uma das edições dos livros de Saramago. Capas reduzidas ao essencial: o nome do autor e o título, desenhado pela mão de um amigo, escritor ou artista próximo.

Deixo o exemplo de O Ano da Morte de Ricardo Reis, por adorar o livro, apesar da capa de cor tão incómoda. Na contracapa ficamos a conhecer o autor da caligrafia — neste caso, o professor e ensaísta Carlos Reis — uma citação de Fernando Pessoa e outra de José Saramago, a informação (para os mais distraídos) de que foi distinguido com o Prémio Nobel da Literatura e outras questões mais técnicas. As badanas dão-nos acesso a uma breve biografia do autor.

Lamento que, ao conceberem esta edição, não tenham tido o cuidado de aplicar a mesma caligrafia na lombada. O aspeto gráfico que torna esta edição única é visível apenas nas prateleiras da livraria. Quando o livro entra em casa e vai para a estante, o seu charme fica escondido. 

No universo das capas de coleção, destaco os Clássicos da Penguin. Há um traço comum a todos os livros: parte inferior da capa a preto, com destaque para o nome do livro e do autor; a faixa branca com a identificação “Penguin Clássicos”; e, na superior, aquilo de que mais gosto — a ilustração, sempre uma pintura, cuidadosamente associada ao título. 

O exemplo que trago é de Virginia Woolf, Um Quarto Só Seu, cuja capa reproduz um óleo sobre tela de Helen Berggruen — informação presente na contracapa — que se associa de forma particularmente feliz ao título. Não sei se por acaso ou intenção, mas parece-me especialmente bem escolhida a obra de uma mulher para ilustrar o livro. 

Ao explorar outros títulos da mesma coleção na loja online da editora, destaco dois aspetos: por um lado, há várias outras combinações perfeitas entre títulos e pinturas; por outro, alguns — poucos — livros dispensam a ilustração e apresentam apenas o título. 

Quais as razões destas escolhas? Fiz algumas pesquisas — muito superficiais, confesso — e não encontrei resposta. Se alguém souber, que partilhe comigo. Da minha parte, escrevi à editora, movida pela curiosidade de leitora. Se me responderem, partilharei. 

Algo que me irrita quase irracionalmente nas capas e contracapas: a utilização de uma “forra”, aquela folha colocada à volta do livro. Toda a informação que deveria estar na capa, contracapa e badanas está nessa “folha”. O último livro de José Eduardo Agualusa, Tudo sobre Deus é um exemplo perfeito: uma folha de meio metro de largura reúne tudo: título, autor, sinopse, biografia e outras obras, e até destaques de imprensa.


 

            Ora, quem, como eu, lê na praia ou à chuva, usa o livro como base da chávena do café ou o deixa lá fora, depois de o ler na varanda, rapidamente descarta esta folha, de tão estragada que está. Nesse caso, o livro perde personalidade, restando então apenas a cor laranja pálido a assinalar a sua existência. Ou será agora muito mais bonito?

Acresce salientar que este livro não contém um marcador (como agora é habitual — leia-se obrigatório), mas sim um postal. Questiono a sua real utilidade, mas gosto de pensar que alguém imaginou o leitor já cansado da habitual tira retangular e me quis surpreender com algo diferente. 

E porque o texto já vai longo, deixo apenas mais um destaque — para contrariar algo que, por norma, detesto: fotografias na capa. Para mim, livro é imaginação. Quando a capa apresenta uma imagem desenhada, assumo-a como a visão de outro leitor e fico ainda mais curiosa para descobrir se imaginamos da mesma forma. Já a fotografia impõe o real e tenho dificuldade em desprender-me dessa imagem e procurar na minha imaginação. 

Mas em Viver para Contá-la, a memória de Gabriel García Márquez, a escolha é perfeita: uma fotografia sua. Olho para as rugas, para o olhar expressivo, a pose descontraída  — e percebo que, realmente, ele viveu para me contar aquela história.

Fica ainda a nota de que, numa das bandanas, surgem os créditos pelo design da capa — um detalhe que merece ser assinalado, apesar da letra tão pequenina como a de qualquer cláusula de um contrato de seguros.



Em suma: as capas são importantes? São. Puro marketing — uma capa bonita dá ao livro maior probabilidade de ser vendido. Mas não se confunda vendido com lido. Porque, se “a beleza atrai mais do que o ouro”, “a beleza sem virtude é como uma rosa sem cheiro”. E se há coisa que eu adoro é o cheiro dos livros cheios de mundo.

 

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