quarta-feira, 11 de março de 2026

Já não quero saber - reeditado

     Era uma vez uma criança que queria saber. Esta é a história do seu primeiro encontro com a indiferença.

    Certo dia, estava no parque a baloiçar e a aproveitar o leve vento que fazia esvoaçar o seu cachecol, até que viu um movimento atrás de um arbusto. Num voo admirável, saiu do baloiço e foi a correr ver o que era. Baixou-se e rastejou debaixo das folhas até que a viu: a formiga do bosque encantado, que aparentava estar a crescer para poderem conversar. Tratava-se de uma formiga espantosa, de corpo cada vez mais inchado, camisola de padrão leopardo e sapatos vermelhos. Parecia fitar o mais completo vazio.

    Apesar de Célia fazer perguntas e mais perguntas à formiga branca, esta apenas lhe respondia que estavam adiantadas e deveriam esperar. Na verdade, o inseto pouco se importava com ela. Por mais questões que lhe fizesse, ela recusava-se a responder. Mas não havia volta a dar: a criança queria saber! Desejava tanto entrar no mundo da formiga, estava tão curiosa para saber mais sobre ela, mas sem sequer estabelecer contacto visual, a mesma continuava o seu dia, como se ela não existisse.

    Foi então que a Célia se lembrou do chocolate que tinha no bolso. Mal abriu o invólucro, o cheiro do doce logo iluminou os olhos da formiga. A menina disse-lhe então:

 Tudo isto será teu se me responderes a algumas dúvidas.

    Perante a concordância da formiga, Célia continuou:

– Para que estamos adiantadas? Onde vamos? Quando paras de crescer? E porque usas sapatos vermelhos?

– Ouve, miúda – respondeu a magnífica formiga – Eu sou apenas uma humilde formiga, nascida e criada em Mirandela, numa família de poucas posses, e não gostava de entrar numa onda de perguntas existenciais.

    A criatura voltou então ao seu silêncio que, apesar de indesejado, se tornava familiar para a criança.

    O crescimento da formiga desde o início da conversa revelou longas pestanas deslumbrantes que ondulavam com a brisa, uma lustrosa carapaça branca, e por último, o seu par de mandíbulas afiadas e em constante movimento lateral. A sua mudez era quebrada apenas pelo ruído constante de mandíbulas a roer o ar.

    Sentindo o olhar da formiga pousar sobre si, Célia agarrou o chocolate com mais força. Nunca se sentiu tão sufocada pelo silêncio.

    Foi nesse dia que a criança aprendeu a estar calada.

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Exercício 15: história triste em três palavras

  —  Agora só amanhã.