Era uma vez uma criança que queria saber. Esta é a história do seu primeiro encontro com a indiferença.
Certo dia, estava no parque a baloiçar e a aproveitar o leve vento que
fazia esvoaçar o seu cachecol, até que viu um movimento atrás de um arbusto. Num
voo admirável, saiu do baloiço e foi a correr ver o que era. Baixou-se e
rastejou debaixo das folhas até que a viu: a formiga do bosque encantado, que
aparentava estar a crescer para poderem conversar. Tratava-se de uma formiga
espantosa, de corpo cada vez mais inchado, camisola de padrão leopardo e sapatos
vermelhos. Parecia fitar o mais completo vazio.
Apesar de Célia fazer perguntas e mais perguntas à formiga branca, esta
apenas lhe respondia que estavam adiantadas e deveriam esperar. Na verdade, o
inseto pouco se importava com ela. Por mais questões que lhe fizesse, ela
recusava-se a responder. Mas não havia volta a dar: a criança queria saber!
Desejava tanto entrar no mundo da formiga, estava tão curiosa para saber mais
sobre ela, mas sem sequer estabelecer contacto visual, a mesma continuava o seu
dia, como se ela não existisse.
Foi então que a Célia se lembrou do chocolate que tinha no bolso. Mal abriu
o invólucro, o cheiro do doce logo iluminou os olhos da formiga. A menina
disse-lhe então:
– Tudo isto será teu se me responderes
a algumas dúvidas.
Perante a concordância da formiga, Célia continuou:
– Para que estamos adiantadas? Onde vamos? Quando paras de crescer? E
porque usas sapatos vermelhos?
– Ouve, miúda – respondeu a magnífica formiga – Eu sou apenas uma humilde
formiga, nascida e criada em Mirandela, numa família de poucas posses, e não
gostava de entrar numa onda de perguntas existenciais.
A criatura voltou então ao seu silêncio que, apesar de indesejado, se
tornava familiar para a criança.
O crescimento da formiga desde o início da conversa revelou longas pestanas
deslumbrantes que ondulavam com a brisa, uma lustrosa carapaça branca, e por
último, o seu par de mandíbulas afiadas e em constante movimento lateral. A sua
mudez era quebrada apenas pelo ruído constante de mandíbulas a roer o ar.
Sentindo o olhar da formiga pousar sobre si, Célia agarrou o chocolate com
mais força. Nunca se sentiu tão sufocada pelo silêncio.
Foi nesse dia que a criança aprendeu a estar calada.
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