sexta-feira, 20 de março de 2026

"Sonho Fervoroso", texto reeditado

 

Sonho Fervoroso

 

Reparei que a água estava turva e decidi que não a beberia. Apesar da sede, nada me convenceria de que aquela água não estava contaminada. Optei por morrer lentamente, sentado no chão moribundo da estação de serviço.

Não sabia que horas eram quando parei de ouvir pingar. Esse silêncio momentâneo e incómodo despertou-me, como se a presença ritmada das gotas perturbasse a operação dos meus sentidos. Estava já conformado com a ideia de que, em breve, fecharia os olhos e o meu corpo desligar-se-ia progressivamente. Órgão por órgão.

Foi nesse compasso de silêncio absoluto que fui tomado por um sentimento de repugnância para comigo mesmo. Estava à espera da morte numa estação de serviço. Senti-me um homem pequeno, frágil, com manias de criança amuada.

 Tenho de me emancipar! gritei para o universo, sentindo novamente o peito crescer.

Os braços pesavam-me ao erguerem o meu corpo do chão. Uma perna arrastava-se atrás da outra, sem que soubesse qual delas se adiantava. Conseguia, no entanto, distinguir sons: pacotes a serem atirados para cestas, o tilintar das moedas na caixa. Mas nenhuma voz por detrás desta, nenhum passo.

Estaria eu no purgatório? Não sabia, mas também já nada me importava. Tudo o que queria era sair e salvar o mundo. Só me faltava perceber de quê.

Saí da casa de banho. Estava tudo ao abandono. O ruído que ouvira tornou-se fantasmagórico, produto da imaginação de alguém que enlouquecera. Experimentei falar, mas não ouvia. Berrava, mas o silêncio era constante.

Comecei a entrar em pânico. Voltei a diminuir, a sentir-me um menininho. Já não era eu o herói, mas quem precisava de ser ajudado. Tentei encontrar alguém que estivesse preso comigo neste mundo. Era impossível que estivesse sozinho.

Quanto mais procurava, mais a minha visão se ia ofuscando. A penumbra acercou-me, mas por breves instantes, recuperei a nitidez. Um grupo de pessoas reunia-se à minha volta. De onde vieram tantas pessoas? Uma mão estendeu-se na minha direção. Já nem sabia se estava a acordar ou a adormecer…

Adormeci.

Quando os meus olhos se abriram, era só eu e a cama do hospital.

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