Sonho Fervoroso
Reparei que a água
estava turva e decidi que não a beberia. Apesar da sede, nada me convenceria de
que aquela água não estava contaminada. Optei por morrer lentamente, sentado no
chão moribundo da estação de serviço.
Não sabia que horas
eram quando parei de ouvir pingar. Esse silêncio momentâneo e incómodo
despertou-me, como se a presença ritmada das gotas perturbasse a operação dos
meus sentidos. Estava já conformado com a ideia de que, em breve, fecharia os
olhos e o meu corpo desligar-se-ia progressivamente. Órgão por órgão.
Foi nesse compasso de
silêncio absoluto que fui tomado por um sentimento de repugnância para comigo
mesmo. Estava à espera da morte numa estação de serviço. Senti-me um homem
pequeno, frágil, com manias de criança amuada.
—
Tenho de me emancipar! — gritei para
o universo, sentindo novamente o peito crescer.
Os braços pesavam-me ao
erguerem o meu corpo do chão. Uma perna arrastava-se atrás da outra, sem que
soubesse qual delas se adiantava. Conseguia, no entanto, distinguir sons:
pacotes a serem atirados para cestas, o tilintar das moedas na caixa. Mas
nenhuma voz por detrás desta, nenhum passo.
Estaria eu no
purgatório? Não sabia, mas também já nada me importava. Tudo o que queria era
sair e salvar o mundo. Só me faltava perceber de quê.
Saí da casa de banho. Estava
tudo ao abandono. O ruído que ouvira tornou-se fantasmagórico, produto da imaginação
de alguém que enlouquecera. Experimentei falar, mas não ouvia. Berrava, mas o
silêncio era constante.
Comecei a entrar em
pânico. Voltei a diminuir, a
sentir-me um menininho. Já não era eu o herói, mas quem precisava de ser
ajudado. Tentei encontrar alguém que estivesse preso comigo neste mundo. Era impossível que estivesse sozinho.
Quanto mais procurava,
mais a minha visão se ia ofuscando. A penumbra acercou-me, mas por breves instantes,
recuperei a nitidez. Um grupo de pessoas reunia-se à minha volta. De
onde vieram tantas pessoas? Uma mão estendeu-se na minha direção. Já
nem sabia se estava a acordar ou a adormecer…
Adormeci.
Quando os meus olhos se abriram, era só eu e a cama do hospital.
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