sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Dificuldades na Tradução de Poesia e Prosa

 Reparei que nunca tinha chegado a publicar o exercício de tradução do poema “Late Fragment” e pensei em fazê-lo agora (apesar de ser estupidamente tarde), então vou partilhá-lo em conjunto com partes de uma tradução péssima que fiz para auxiliar uma amiga num trabalho. Para contextualizar, ela está no Mestrado de Tradução e decidiu fazer um estudo sobre traduções humanas em comparação com traduções feitas com inteligência artificial e eu fui a cobaia que ela chamou para fazer a tradução humana. Uma grande falha no carácter do ser humano é achar que por dominar uma língua (ou pensar que domina), será um bom tradutor dessa língua, algo de que padeci e amargamente me arrependo. Devo dizer também que este texto não é para olhinhos sensíveis pela quantidade de vezes que me refiro à IA como clanker. Sim, com hard r.

O poema é mais fácil de mostrar (porque é curto e tenho menos apego por ele), mas contém exatamente os mesmos erros que vou apontar mais tarde. Para traduzir textos líricos é impossível não sacrificar a métrica em favor do conteúdo ou vice-versa e parece sempre que carece da essência do texto original (uma ótima razão para preferir lê-lo em favor da tradução, quando se conhece a língua).

Vou colocar aqui o poema novamente para os menos recordados:

 

“And did you get what

you wanted from this life, even so?

I did.

And what did you want?

To call myself beloved, to feel myself

beloved on the earth.”

 

Apresentarei agora uma proposta de tradução:

 

E conseguiste o que

querias desta vida?

Sim.

E o que querias?

Considerar-me amado; sentir-me

amado nesta terra.

 

Algumas decisões tiveram de ser tomadas para preservar parte da essência do poema. Primeiro, tive de começar uma frase com a copulativa “e”, o que não é recomendado em português, mas em poesia “vale tudo”. Depois, ponderei muito sobre o “I did”. Deveria só pegar no verbo e usá-lo como resposta? Ou um “sim” basta? Pensei que esta última se encaixasse melhor por se aproximar mais da métrica do poema original. No entanto, o pior foi traduzir “Call myself beloved,” que para mim é só outra maneira de dizer “sentir-me amado”, mas não podia dizê-lo duas vezes.

Quanto à tradução de texto em prosa, a coisa é ligeiramente diferente. Já não se obedece à métrica, mas tem sempre de se manter um certo “tom” que algumas línguas não permitem alcançar. O romance que ela escolheu foi House of Salt and Sorrows, de Erin A. Craig, uma vez que não existe tradução em português europeu (mas há em português do Brasil). Um dos maiores problemas que encontrei na tradução deste romance foi como o tornar digno de uma nobreza rural (o que digo já que não aconteceu), mas também me custou manter o tom de mistério e, claro, evitar falhas lógicas por traduções literais (o que também não aconteceu).

Não vou apresentar a totalidade de um trabalho de que não me orgulho (na verdade até repudio), mas traduzi aproximadamente duas páginas A4, das quais mencionarei apenas pequenos parágrafos.

Antes de mais, é necessário relembrar que o inglês é uma língua de frases curtas, o que não se traduz bem para o português, onde uma frase curta é pobre; muito pouco digna da nobreza que o texto pretendia retratar. A seguinte tradução tem isso em consideração, já que junta através de uma copulativa “e” duas ideias que no original são separadas por ponto final.

“Pelo menos o salão de baile não desapontava. As cortinas de veludo, azul-marinho com detalhes prateados, estavam majestosamente espalhadas pelo salão, a criar cantinhos reservados perfeitos para encontros românticos. Vistosas flores roxas caíam por pilares canelados e o candelabro cintilava e luzia, com os seus pingentes de cristal retorcidos e caídos para formar os braços do polvo dos Thaumas. O centro do candelabro era o corpo, que refratava a luz de mil velas acesas. Aquele enorme animal cobria metade do teto.”

Os aspetos terríveis são justamente aqueles de que venho falar, então, ignorando o facto de que o acento em “Papá” ficou por terra, o pior deles foi a falha lógica entre dois enunciados. No original, dizia “I glanced around the ballroom, hoping some of the visitiors had ventured into other parts of the manor. Hadn’t we greeted more people than this? The hall, which could easily hold three hundred people, felt half full”, então a minha tradução foi:

“Olhei à volta do salão de baile, na esperança de que alguns visitantes se tivessem aventurado para outras partes da mansão. Não tínhamos cumprimentado mais pessoas do que estas? O corredor, que poderia facilmente comportar trezentas pessoas, parecia quase cheio.”

O problema principal é que o texto original parece dúbio. Na minha primeira leitura, o “hall” era onde estavam os convidados todos no início; os tais convidados que elas teriam cumprimentado quase eternamente. No entanto, também faz sentido que se tratasse da quantidade de pessoas no momento presente, já que ela esperava que eles tivessem ido explorar outros cantos da mansão e era por isso que não estavam ali. Desta forma, acredito que as duas opções pudessem existir em simultâneo, mas penso que a mais correta seria a de que estava “quase vazio”, então vou assumir a minha derrota. Clanker-1, Adriana-0.

Quanto ao tom de nobreza, esse desaparece logo quando me refiro à esposa do Papá (o Duque de Salann) como “a minha mulher”. De facto, utilizar “mulher” para traduzir “wife” não é descabido, mas no contexto soa mal. Da mesma forma que frases depois traduzo “kissed the tips of the woman’s fingers” como “beijou as pontas dos dedos da mulher”, quando talvez “senhora” tivesse sido mais bonito. Contudo, não vou dar este ponto ao clanker porque a culpa foi da autora e não minha; ela que escrevesse “lady”.

Outra questão desastrosa foi a tradução literal das palavras em vez de considerar o contexto em que elas se inserem, mas isso também o fez o clanker. Por isso, mesmo que me tire pontos também não lhos dá.

No geral, deve de ser assim que os tradutores se sentem: a ler algo que não têm vontade às duas da madrugada acompanhados de cansaço e café, a relembrar-se constantemente de que têm mais trabalho no dia a seguir. Devo dizer que começo a respeitar mais os tradutores porque me pareceu um trabalho mais maçante e duradouro do que o de revisão. Fica aqui escrito também que não vou perdoar a minha amiga por ter mexido numa frase do meu texto e retirado um artigo que fazia falta. Logo eu, que costumo ter cuidado para não passar vergonhas desnecessárias.

(Esta última frase fica sem efeito se encontrarem alguma gralha.)

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