Reparei que nunca tinha chegado a publicar o exercício de tradução do poema “Late Fragment” e pensei em fazê-lo agora (apesar de ser estupidamente tarde), então vou partilhá-lo em conjunto com partes de uma tradução péssima que fiz para auxiliar uma amiga num trabalho. Para contextualizar, ela está no Mestrado de Tradução e decidiu fazer um estudo sobre traduções humanas em comparação com traduções feitas com inteligência artificial e eu fui a cobaia que ela chamou para fazer a tradução humana. Uma grande falha no carácter do ser humano é achar que por dominar uma língua (ou pensar que domina), será um bom tradutor dessa língua, algo de que padeci e amargamente me arrependo. Devo dizer também que este texto não é para olhinhos sensíveis pela quantidade de vezes que me refiro à IA como clanker. Sim, com hard r.
O poema é mais fácil de mostrar (porque é curto e tenho menos apego
por ele), mas contém exatamente os mesmos erros que vou apontar mais tarde.
Para traduzir textos líricos é impossível não sacrificar a métrica em favor do
conteúdo ou vice-versa e parece sempre que carece da essência do texto original
(uma ótima razão para preferir lê-lo em favor da tradução, quando se conhece a
língua).
Vou colocar aqui o poema novamente para os menos recordados:
“And did you get what
you wanted from this life, even so?
I did.
And what did you want?
To call myself beloved, to feel myself
beloved on the earth.”
Apresentarei agora uma proposta
de tradução:
E conseguiste o que
querias desta vida?
Sim.
E o que querias?
Considerar-me amado;
sentir-me
amado nesta terra.
Algumas decisões tiveram de ser
tomadas para preservar parte da essência do poema. Primeiro, tive de começar
uma frase com a copulativa “e”, o que não é recomendado em português, mas em
poesia “vale tudo”. Depois, ponderei muito sobre o “I did”. Deveria só pegar no
verbo e usá-lo como resposta? Ou um “sim” basta? Pensei que esta última se
encaixasse melhor por se aproximar mais da métrica do poema original. No
entanto, o pior foi traduzir “Call myself beloved,” que para mim é só outra
maneira de dizer “sentir-me amado”, mas não podia dizê-lo duas vezes.
Quanto à tradução de texto em prosa, a coisa é ligeiramente
diferente. Já não se obedece à métrica, mas tem sempre de se manter um certo “tom”
que algumas línguas não permitem alcançar. O romance que ela escolheu foi House
of Salt and Sorrows, de Erin A. Craig, uma vez que não existe tradução em português
europeu (mas há em português do Brasil). Um dos maiores problemas que encontrei
na tradução deste romance foi como o tornar digno de uma nobreza rural (o que
digo já que não aconteceu), mas também me custou manter o tom de mistério e,
claro, evitar falhas lógicas por traduções literais (o que também não
aconteceu).
Não vou apresentar a totalidade de um trabalho de que não me
orgulho (na verdade até repudio), mas traduzi aproximadamente duas páginas A4,
das quais mencionarei apenas pequenos parágrafos.
Antes de mais, é necessário relembrar que o inglês é uma língua
de frases curtas, o que não se traduz bem para o português, onde uma frase
curta é pobre; muito pouco digna da nobreza que o texto pretendia retratar. A
seguinte tradução tem isso em consideração, já que junta através de uma
copulativa “e” duas ideias que no original são separadas por ponto final.
“Pelo menos o salão de baile não desapontava. As
cortinas de veludo, azul-marinho com detalhes prateados, estavam majestosamente
espalhadas pelo salão, a criar cantinhos reservados perfeitos para encontros
românticos. Vistosas flores roxas caíam por pilares canelados e o candelabro
cintilava e luzia, com os seus pingentes de cristal retorcidos e caídos para
formar os braços do polvo dos Thaumas. O centro do candelabro era o corpo, que
refratava a luz de mil velas acesas. Aquele enorme animal cobria metade do
teto.”
Os aspetos terríveis são justamente aqueles de que venho falar,
então, ignorando o facto de que o acento em “Papá” ficou por terra, o pior
deles foi a falha lógica entre dois enunciados. No original, dizia “I glanced
around the ballroom, hoping some of the visitiors had ventured into other parts
of the manor. Hadn’t we greeted more people than this? The hall, which could
easily hold three hundred people, felt half full”, então a minha tradução foi:
“Olhei à volta do salão de baile, na esperança de que
alguns visitantes se tivessem aventurado para outras partes da mansão. Não
tínhamos cumprimentado mais pessoas do que estas? O corredor, que poderia
facilmente comportar trezentas pessoas, parecia quase cheio.”
O problema principal é que o texto original parece dúbio. Na
minha primeira leitura, o “hall” era onde estavam os convidados todos no início;
os tais convidados que elas teriam cumprimentado quase eternamente. No entanto,
também faz sentido que se tratasse da quantidade de pessoas no momento presente,
já que ela esperava que eles tivessem ido explorar outros cantos da mansão e
era por isso que não estavam ali. Desta forma, acredito que as duas opções pudessem
existir em simultâneo, mas penso que a mais correta seria a de que estava “quase
vazio”, então vou assumir a minha derrota. Clanker-1, Adriana-0.
Quanto ao tom de nobreza, esse desaparece logo quando me refiro à
esposa do Papá (o Duque de Salann) como “a minha mulher”. De facto, utilizar “mulher”
para traduzir “wife” não é descabido, mas no contexto soa mal. Da mesma forma
que frases depois traduzo “kissed the tips of the woman’s fingers” como “beijou
as pontas dos dedos da mulher”, quando talvez “senhora” tivesse sido mais bonito.
Contudo, não vou dar este ponto ao clanker porque a culpa foi da autora
e não minha; ela que escrevesse “lady”.
Outra questão desastrosa foi a tradução literal das palavras em
vez de considerar o contexto em que elas se inserem, mas isso também o fez o clanker.
Por isso, mesmo que me tire pontos também não lhos dá.
No geral, deve de ser assim que os tradutores se sentem: a ler
algo que não têm vontade às duas da madrugada acompanhados de cansaço e café, a
relembrar-se constantemente de que têm mais trabalho no dia a seguir. Devo
dizer que começo a respeitar mais os tradutores porque me pareceu um trabalho
mais maçante e duradouro do que o de revisão. Fica aqui escrito também que não
vou perdoar a minha amiga por ter mexido numa frase do meu texto e retirado um
artigo que fazia falta. Logo eu, que costumo ter cuidado para não passar
vergonhas desnecessárias.
(Esta última frase fica sem efeito se encontrarem alguma gralha.)
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