Foi o próprio Jorge Reis-Sá que esteve "à conversa" com a autora (não antes de uma breve introdução por Duarte Azinheira, administrador executivo da INCM), até porque são amigos e esta não é a sua primeira colaboração: a primeira, Algumas Letras, foi publicada em 2003, e a segunda, Saga Lusa, em 2008, ambas pela defunta Quasi Edições (também estas obras, apesar de não serem o motivo da ocasião, tiveram direito a dois dedos de conversa). Do seu fascinante diálogo, partilho três assuntos:
Primeiro, o processo de escrita da autora: Adriana Calcanhotto admitiu-o moroso, mas porque ela assim o quer. Destacou a necessidade de, como já referido pelo professor, escrever, parar (e idealmente aproveitar a pausa para fazer algo que nada tenha a ver com a escrita/o assunto sobre o qual escreveu), e só depois (auto-)editar. Para além disso, confessou ter um cuidado redobrado no que diz respeito à sintaxe dos seus versos: o seu objetivo é que cada um tenha o máximo sentido/significado possível, o que implica, por vezes, reescrever e reinterpretar cada palavra — e até mesmo cada sílaba.
Depois, os "gatos e as baratas" da Adília Lopes: Estes bichos, cuja brincadeira fez parte de um dos exercícios que realizámos em aula, integraram também esta apresentação, surgindo em referência a uma entrevista de Ricardo Araújo Pereira à poetisa (sobre a qual recomendo lerem aqui). Jorge Reis-Sá, com medo de "bancar o espertinho" e viver um episódio semelhante, mas curioso quanto à falta de pontuação e existência de capitulares em todos os versos de Adriana Calcanhotto, questionou: Haverá algum motivo por detrás destas decisões, ou serão elas também só "gatos e baratas"? A resposta é não, não são. Tratam-se de estratégias para descomplicar os versos. Quanto a mim, achei esta pergunta muitíssimo interessante. Afinal, qual é o trabalho do editor se não decifrar, ou não, gatos e baratas?
Por último, as influências de Adriana Calcanhotto: São muitas, mas ressalto a própria Adília Lopes e a sua musa** Clarice Lispector, cuja obra A mulher que matou os peixes foi destacada pela cantora como "o livro que mudou a sua vida". Penso que não seja necessário parafrasear demasiado quanto a este assunto; o ponto é que a chave para escrever é ler.
Há muito outros temas que poderia ter aprofundado neste pequeno relatório: a escrita como catarse, por exemplo, ou o facto de alguns dos manuscritos "originais" contemplados no livro Pra Lhe Dizer terem sido, na verdade, forjados à última hora pela autora. É essa uma das vantagens de a relação pessoal e profissional entre editor e autora ser palpável — a conversa fluiu, e, como tal, nenhum dos 45 minutos que durou pareceu em vão. Foi um evento muito agradável e até descontraído, apesar da sua localização já centenária, e um final de tarde muito bem passado.
*("Porque «a letra é um poema e um poema é uma letra», a Plural Letra Poema é um reconhecimento da letra no seu estatuto de poema. As letras que sempre foram música podem agora ser lidas como poemas que são", lê-se no site da Imprensa Nacional)
**Curiosidade: Adriana Calcanhotto não só musicou este poema, como o interpretou, dois dias antes deste evento, na Fundação Calouste Gulbenkian
Beatriz Urbano
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