Ao longo dos últimos anos tem surgido um aumento no número de livros comprados em inglês, no nosso país. Há múltiplas razões que justifiquem esta situação. Para começar, o uso da internet, já totalmente integrado no nosso dia-a-dia, permite um acesso à vida quotidiana de quem a partilha nas redes sociais que, para quem é leitor, pode consistir na “divulgação” de livros (por simples gosto de mostrar o que estão a ler aos amigos, ou com o intuito de atingir um público geral de leitores, como fazem os bookstagrammers e os booktokers). Isso é uma excelente forma de publicidade ao livro, pois permite apresentá-lo a novos leitores que de outra forma podiam não chegar a ele. Porém, o que o efeito da globalização tecnológica trouxe essencialmente para a área do livro online foi a generalização do livro em inglês. Quem “segue” pessoas que leiam sobretudo em inglês (seja por ser a sua língua materna ou não) estará a ter um contacto em primeira mão de obras escritas nessa língua, podendo por vezes, se tiver interesse em comprar o livro, nem procurar se o mesmo já foi traduzido.
Ainda no tópico das redes sociais, quem decida utilizar uma plataforma digital para partilhar as suas leituras poderá achar propenso falar sobre elas em inglês (o que um pouco inevitavelmente leva a consumir livros em inglês, mesmo que não todos). Essa escolha pode ser para que o seu conteúdo chegue a um maior número de pessoas, enquanto se optasse por comunicar apenas em português a sua audiência seria muito mais restrita.
Uma segunda razão, e possivelmente a primeira que vem à mente quando se aborda este assunto, é o facto de o preço dos livros em inglês ser, no geral, mais barato. Apesar dos seus preços terem vindo a aumentar com os anos, o seu valor continua a ser inferior ao dos livros em português (quando se trata de uma edição “normal”, paperback). Isto leva a que haja uma preferência pelas obras em inglês, mesmo que a diferença de custos seja mínima.
Fugindo ao acto de comprar livros, mas tocando noutro aspecto que tem aumentado - a pirataria. E esta tem aumentado maioritariamente com a afluência dos ebooks (mas não só). Ora, a pirataria é crime, mas não há propriamente forma de impedir o seu uso individual (tirando quando os sites que distribuem esses livros são “levados abaixo”, como foi o caso há uns dois anos da ZLibrary, e que é hoje um serviço de difícil acesso), e existe um número muito maior de livros pirateados em inglês do que em português e que tenham sido editados em Portugal*. Então se se tratar de uma obra editada recentemente é praticamente impossível encontrá-la dessa forma.
*(Não digo apenas em português porque sei de pelo menos um site de livros pirata de edições brasileiras).
Sobre livros publicados recentemente, aproveitando para pegar no final do parágrafo anterior, estes se tiverem sido escritos em inglês e se uma pessoa tiver muito interesse em lê-lo o mais cedo possível, não hesitará em procurá-lo numa livraria que venda livros em inglês ou encomendá-lo online, ou pirateá-lo, ou qualquer outra coisa do que esperar que uma editora portuguesa trabalhe nele.
Por fim, acho que vale a pena também referir que há quem prefira ler os livros na língua em que foram escritos originalmente, se tiverem o conhecimento da língua em questão. Não sei se é um factor muito significativo, mas sei que é uma razão relevante para alguns leitores e não quis deixar de tocar nela.
Após expor todas estas razões quero continuar a acreditar que não iremos ler todos apenas em inglês no futuro. Pode haver muita comunicação mediática em inglês nesta área, mas tal como continuam a surgir cada vez mais novos autores portugueses esses autores têm de ser primeiramente leitores e de ler na sua língua materna, para saberem escrever correctamente nessa língua (assumindo que não pretendam escrever logo em inglês).
Bons incentivos, alguns já em prática, para que não se percam leitores de livros em português:
- Usufruir das bibliotecas - para quem toca sempre no ponto dos preços;
- As feiras dos livros (e diversificação das suas actividades e eventos) que têm vindo a atrair mais gente de ano para ano (este ano a feira do livro do Porto atingiu um novo recorde de visitantes), e que vendem livros publicados principalmente em português;
- Para quem faz conteúdo online sobre livros, as editoras e livrarias devem fazer com que apostem em divulgar os que são editados em Portugal (por exemplo, a Bertrand contacta alguns desses influenciadores para serem seus afiliados, ou seja, ao falarem sobre um livro poderem partilhar o link que vai directo ao site da livraria, para caso alguém o compre através desse link o influenciador possa monetizar da publicidade feita à livraria;
- As editoras devem ter uma forte presença online e divulgar eventos regularmente para que os leitores se interessem pela editora em si, no seu catálogo. Um exemplo destes é a feira de natal da Orfeu e da Antígona (entre outras editoras e livrarias), que vai ter à venda livros danificados a preços muito baratos; assim como a Tinta-da-China que também terá uma semelhante. Ambas ocorrem amanhã, sábado, dia 13.
Este texto surgiu como espécie de resposta a uma das questões do ponto 11.6 da sebenta da cadeira.
Bárbara Faria.
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