sábado, 21 de fevereiro de 2026

"Manhã", em bruto e editado

 Manhãs (em bruto)

Os sinos tocavam ao longe e, uma por uma, as janelas batiam contra a pedra branca, revelando as cabeças curiosas das Donas Marias e Donas Helenas. Suspiros sobre a noite mal passada e queixas sobre o dia mal iniciado esvoaçavam em simultâneo com o pó dos tapetes que estas tiravam das suas casas. (Joana Garcia)

O pior já tinha passado, ou pelo menos assim esperavam. Na rua, larga e enlameada, passava a carrinha do padeiro. (Beatriz Urbano)

"As chuvas não dão tréguas", já diziam os antigos. (Maria Inês Alves)

"Bom dia, Donas. As estradas têm estado cortadas. Só hoje é que conseguimos passar", o padeiro gritou da rua. (Beatriz Esteves)

"Pois é. O São Pedro anda zangado connosco." Disse uma delas, tentando encontrar humor na situação. (Carolina Lucas)

A outra permanecia quieta, encolhida num canto, com apenas metade da cara iluminada pelo sol ainda a erguer-se. Não parecia ter nada a dizer, como se todo o quotidiano se tivesse transformado em algo frívolo. (Matilde Mateus)

Por detrás daquela fachada de indiferença, o seu coração batia a mil. A última cheia a atingir a aldeia levara-lhe o marido. E há muito que aquela imagem, que agora voltava, já se esvaiara da cabeça - uma onda a desmembrar-se do rio, devorando Marco António numa só dentada. (Sara Cardoso)

As outras despedem-se do padeiro com afeto.
"Até amanhã, se Deus quiser!", dizem elas.
Deus. Por mais que tente D. Helena já não consegue encontrar conforto em Deus. (Bárbara Faria)

Há muito que deixara de se orientar pelos sinos que finalizavam a sua sinfonia. (Joana Garcia) 


Manhã (editado)

Ao longe, os sinos anunciavam a manhã. Uma por uma, as janelas eram abertas, revelando as cabeças das Donas Marias e Donas Helenas. Suspiros sobre a noite mal passada esvoaçavam em simultâneo com o pó dos tapetes que sacudiam. "As chuvas não dão tréguas..."

O pior já tinha passado. Pelo menos assim o esperavam. Na rua larga e enlameada passava a carrinha do padeiro. 

"Bom dia, Dona Maria." Ia cumprimentando uma por uma. "As estradas têm estado cortadas. Só hoje é que consegui passar."

"Pois é! O São Pedro anda zangado connosco." Gritava a mais bem-disposta, tentando encontrar humor na situação.

Dona Helena permanecia silenciosa, recolhida num canto. Apenas metade da sua cara, iluminada pelo sol que ainda se erguia, era visível. Parecia encontrar-se longe dali, como se tudo se tivesse transformado em algo frívolo. 

A última cheia a atingir a aldeia fora há tanto tempo. Quase o tempo que a levara a esquecer a imagem que nesta manhã voltava para a atormentar. Uma onda a desmembrar-se do rio, devorando Marco António. O seu coração batia a mil. 

"Até amanhã, se Deus quiser." Ouvia as vizinhas despedirem-se do padeiro. 

Deus. Por mais que tentasse, Dona Helena já não conseguia encontrar conforto em Deus. Aquele que lhe levara para sempre o marido. 

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  —  Agora só amanhã.