Reflexo do Ódio
Nunca conheci alguém tão enervante quanto a pessoa que me encara do outro lado do espelho. Porque é que sempre que olha para mim, está com ar de quem preferia estar diante a qualquer outra coisa? (Inês Marques)
Os olhos frios, a pele irregular, o cabelo despenteado. Molho a cara e olho de novo no espelho. Ainda está aqui. A mesma face, a mesma expressão. Acontece com todos os espelhos. Gostava que fosse diferente. Porque é que ela não desaparece? (Catarina Caria)
Diante de mim encontra-se esta gémea maléfica que procura fazer crescer este meu desespero interior. Não sei ao certo quando deixei de gostar dela, mas fujo de espelhos como o diabo foge da cruz. (Filipa Branco)
Mal consigo andar na rua. Nunca repararam na quantidade de superfícies refletores existentes no nosso dia-a-dia? Montras, vidros, poças de água — tudo me apavora. (Rita)
Prefiro olhar para o céu, para a natureza... não para esta tristeza... já tentei de tudo: chapéus compridos, para não ver as montras, óculos escuros, para dificultar a visão, mas nada funciona. (Raquel Sousa)
Sou como Narciso, condenado a uma eternidade de sofrimento por olhar para o meu reflexo, aquele cruel gémeo de quem não posso escapar. Deverei eu cegar-me, como fizera Édipo, no ápice da sua dor? (Lúcia Ferreira)
Mas isso de nada me serviria e sabem porquê? Porque não preciso de olhos ou superícies refletoras para a ver, não quando ela está sempre na minha cabeça, aterradoramente presente até quando fecho os olhos. (Inês Marques)
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