sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

«Revelação» em bruto, editado e reeditado (versão em verso)

 Em bruto:

Parece que estamos a viver no fim dos tempos, no entanto a urgência do quotidiano não termina. Foi assim que imaginaram o colapso? Pessoalmente, acho um bocado cansativo o fim da civilização às prestações. (Rita)

Podia explodir tudo de uma vez! Talvez fosse mais divertido ver o circo pegar fogo… (Raquel)

Ainda assim, há uma certa beleza na lentidão do fim dos tempos. É sempre mais saboroso deliciar algo devagarinho, tendo plena consciência de que, no final, algo horrível irá acontecer. De outra forma, o ser humano não conseguiria romantizar o seu fim. (Lúcia)

É como mascar uma goma que no final nos deixa aquele sabor agridoce na língua. Deliciamo-nos com ela até terminar, e tudo o que fica são as consequências. Honestamente, pensei que o fim do mundo fosse visto como uma tragédia, mas cada vez mais parece esperança. (Inês M.)

Por vezes penso que se a vida é um carrossel quero continuar a rodar. A ver os dias passar, a saborear as guloseimas do mundano. Por vezes quero desmontar e sair. Será agora? Mas estarei satisfeita com as voltas que dei? Fui realmente eu que decidi por os pés no chão ou foi o carrossel que parou? (Catarina)

Será desta que o fim chegou? Se nada mais nos resta, vou meditar e espera pela hora de dizer adeus. (Filipa B.)

Ou então dançar até me doerem os pés. Sugar o que resta do tutano da vida. Se não houver amanhã, que importará? (Rita)


Editado:

    Tudo indica que estamos a existir no fim dos tempos, no entanto, a urgência do banal impera sobre todos os momentos. Foi assim que imaginaram o colapso? 

    É extenuante viver o fim da civilização faseadamente. Podia estourar já… talvez fosse mais interessante ver tudo a desmoronar de uma só vez.

    Ainda assim, há dignidade na lentidão do fim. É sempre mais palatável saborear devagarinho, tendo em consciência que, no final, algo tenebroso acontecerá. É como mascar uma pastilha, deliciamo-nos até restar apenas um travo amargo.

    Esta vida é um carrossel: quero continuar a rodar? Ver dias a passar, aproveitar as tentações mundanas? Quero desmontar e sair? Estou satisfeita com as voltas que dei? Vou ser quem decide pôr os pés no chão ou será o engenho a parar?

    Se nada mais restar, reflito enquanto aguardo a despedida, ou danço até à exaustão e aproveito o que posso até tudo desaparecer. Se não houver amanhã, que importa?

    Sempre pensei o apocalipse como uma tragédia, mas pode ser um sinal de esperança, do devir. Afinal, também lhe chamam revelação. Se assim for, consigo idealizar o fim.



Reeditado (versão em verso):


O fim dos tempos.

A urgência absurda do banal.

Colapso faseado, extenuante.

 

Quando tudo parar, finalmente,

Ideia tenebrosa e lúcida

Restar-nos-á dignidade?

 

Ou apenas um travo amargo na boca

Depois de tanto mascar questões existenciais,

As únicas que parecem fazer sentido.

 

Ver os dias a passar, e a tragédia.

Continuar a dançar, ceder às tentações.

Sem razão, sem motivo.

 

O apocalipse, revelação.

O devir, nova génese.

Não finda. Tanto sabemos.



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