quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

"Sonhos Fervorosos", editado.

 

Sonhos Fervorosos

Reparei que a água estava turva e decidi que não a beberia. Apesar da sede, nada me convenceria de que aquela água não estava contaminada. Optei, assim, por morrer lentamente, sentado no chão moribundo da estação de serviço.

Não sabia que horas eram quando parei de ouvir pingar. Esse silêncio momentâneo e incómodo despertou-me, pelo que percebi que o sangue da ferida aberta no meu joelho estancara. Levantei-me desajeitadamente e segui à procura de saída.

Os braços pesavam-me, erguendo o meu corpo do chão. Uma perna arrastava-se atrás da outra, sem que soubesse qual delas se adiantava. Conseguia, no entanto, distinguir sons: pacotes de fritos a serem atirados para cestas, o tilintar das moedas na caixa. Mas nenhuma voz por detrás desta, nenhum passo.

Estaria eu no purgatório? Não sabia, mas também já nada me importava. Tudo o que queria era sair e livrar-me dos ruídos que se ampliavam em redor.

E assim, num ápice, como se a minha prece fosse atendida, deixei de ouvir qualquer barulho. Falava e não ouvia. Berrava, mas o silêncio era constante.

Nada.

Comecei a entrar em pânico. Num mundo sem som como poderia pedir ajuda? Como me poderiam acudir? Tentei encontrar alguém. Alguém que estivesse preso comigo neste mundo silente. Era impossível que estivesse sozinho.

Quanto mais procurava, mais a minha visão se ia ofuscando, a penumbra acercou-me. Mas por breves momentos, recuperei a nitidez. Um grupo de pessoas reunia-se à minha volta. De onde vieram tantas pessoas? Já nem sabia se estava a acordar ou a adormecer…

Adormeci.

Quando os meus olhos se abriram, era só eu e a cama do hospital. Ainda sentia um formigueiro no lugar em que me tocaram.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Exercício 15: história triste em três palavras

  —  Agora só amanhã.