Sonhos Fervorosos
Reparei que a
água estava turva e decidi que não a beberia. Apesar da sede, nada me
convenceria de que aquela água não estava contaminada. Optei, assim, por morrer
lentamente, sentado no chão moribundo da estação de serviço.
Não sabia que
horas eram quando parei de ouvir pingar. Esse silêncio momentâneo e incómodo
despertou-me, pelo que percebi que o sangue da ferida aberta no meu joelho estancara.
Levantei-me desajeitadamente e segui à procura de saída.
Os braços
pesavam-me, erguendo o meu corpo do chão. Uma perna arrastava-se atrás da
outra, sem que soubesse qual delas se adiantava. Conseguia, no entanto,
distinguir sons: pacotes de fritos a serem atirados para cestas, o tilintar das
moedas na caixa. Mas nenhuma voz por detrás desta, nenhum passo.
Estaria eu no
purgatório? Não sabia, mas também já nada me importava. Tudo o que queria era
sair e livrar-me dos ruídos que se ampliavam em redor.
E assim, num
ápice, como se a minha prece fosse atendida, deixei de ouvir qualquer barulho. Falava
e não ouvia. Berrava, mas o silêncio era constante.
Nada.
Comecei a
entrar em pânico. Num mundo sem som como poderia pedir ajuda? Como me poderiam
acudir? Tentei encontrar alguém. Alguém que estivesse preso comigo neste mundo silente.
Era impossível que estivesse sozinho.
Quanto mais
procurava, mais a minha visão se ia ofuscando, a penumbra acercou-me. Mas por
breves momentos, recuperei a nitidez. Um grupo de pessoas reunia-se à minha
volta. De onde vieram tantas pessoas? Já nem sabia se estava a acordar
ou a adormecer…
Adormeci.
Quando os meus
olhos se abriram, era só eu e a cama do hospital. Ainda sentia um formigueiro
no lugar em que me tocaram.
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