quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Uma Existência Insólita — Texto em bruto

 O meu corpo encolhe-se de forma a caber, formando uma vénia. No meu furor para o alcançar começo a sentir o suor a picar-me a pele como se tivesse uma colónia de formigas a percorrer-me o corpo. Metal cerca-me de tal maneira que sinto que estou a lamber o espaço à minha volta, uma sensação fresca e desagradável na minha boca.

Alcanço a minha mão na sua direção. Mas no momento em que os meus dedos esguios pousam sobre a sua superfície rogosa, o livro move-se, caindo para o abismo.

De repente qualquer possibilidade de fuga desvanece-se, o impacto do livro a cair no fundo do poço como se fosse um peso a esmagar-me. Encolhido não consigo fazer mais nada senão chorar.

Tinta negra escorre sobre mim, molhada e química. Letras de palavras e palavras de frases que me aprisionam. Sinto as pedras do poço a moverem-se, colidindo com o papel que me cerca.

Penso em desistir. Agora que desperdicei a minha oportunidade, a primeira em anos, estou de volta à estaca zero. Mas não posso— não quando estive tão perto.

E por isso escrevo palavras sem sentido algum, sem algum sentido.

Palavras soltas que me percorrem a mente. Escrevo para não me esquecer.

Mesmo sabendo que até estas serão esquecidas um dia.

Mas estas desaparecem, como se eu não fosse. Porque eu não posso ser sem escrever. Eu sou composto por palavras.

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