A Raiva (texto editado)
Naquela manhã o autocarro não passou às oito horas. Nem dez nem vinte minutos depois. O que, para todos os efeitos, não lhe teria feito diferença, já que vinte horas antes havia sido despedido.
Aquilo que seria apenas mais um dia normal da sua rotina, deixara de o ser - afinal, a sua vida acabara de mudar completamente. Por que motivo deveria aquele homem se preocupar ainda?
“Agradecemos o seu contributo ao longo destes anos, porém não nos é mais necessário. Muito obrigado.” Simpatia empresarial. Para ele, apenas uma maneira chique de o despacharem.
E agora? Qual seria o seu próximo passo?
Deixou-se ficar sentado na paragem de autocarro, enquanto outros iam e vinham, seguindo as suas vidas. Não tinha para onde ir. Levantar-se naquela manhã fora apenas um reflexo de anos preso à mesma rotina.
Decidiu então caminhar, passar pelos sítios onde fora mais feliz, onde se sentira mais vivo. E assim conseguiu tomar uma decisão.
Chamou um táxi e foi para o seu (agora) antigo trabalho. Fora feliz nas ruas por onde passou mas era, definitivamente, mais feliz nas paredes sufocantes da empresa.
Cumprimentou o seu antigo colega, que detestava, e deu-lhe um murro.
- Agora voltas ao escritório e pedes uma baixa, Armando. Pode ser que voltem a precisar de mim!
Continuou pelo escritório adentro até à sala de refeição, onde costumava almoçar. Agarrou na primeira faca que viu e, ao entrar abruptamente no gabinete da sua antiga supervisora, desferiu-lhe três golpes na barriga.
- Afinal os cortes no pessoal passam primeiro por ti, não é? Isso é que é dar sangue, suor e lágrimas pela empresa!
Depois, correu porta fora em busca do diretor da empresa que, já a par da situação, se escondeu debaixo da sua secretária. Pensou que, se Alberto não o visse, simplesmente se fosse embora.
No entanto, Alberto, que descobrira o diretor, agarrou-o e disse:
- Agora vais transferir todo o teu dinheiro para mim, seu cabrão mal-amado!
E o diretor assim fez. Alberto era agora um homem rico, mas com problemas na justiça. Teve de pagar vários advogados, o que o levou de volta à estaca zero.
Eram agora, de novo, oito horas da manhã e Alberto, sem um tostão no bolso, precisava de ir a uma entrevista de emprego. Foi assim que, num pujante ato de coragem, se decidiu:
- Estou farto deste autocarro, vou mas é a pé!
- Estou farto deste autocarro, vou mas é a pé!
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