Eram quatro da manhã quando acordei sobressaltada com a tempestade que decorria lá fora. Levantei-me silenciosamente para ir buscar um copo de água, tentando não acordar Mariana que dormia profundamente. O temporal agravava-se e para lá da janela da cozinha a rua mostrava-se negra, sendo possível ver apenas uma casa mal iluminada que piscava uma pequena luz vermelha.
Era certo de que não conseguiria voltar a adormecer tão depressa. Acendi a luz do exaustor e enchi o copo com água. Do canto do olho continuava a ver a luz vermelha, persistente e cada vez mais forte. Ou talvez fosse apenas impressão minha, induzida pelo sono.
Não, estava certa de que não era só o sono, e que aquela luz vermelha ameaçaria cegar-me se olhasse bem para ela. E, assim que o pensei, sem aviso, de rompante, os meus ouvidos estalaram com um som ensurdecedor e tudo o que via era penumbra.
Pensei ter sido atingida por uma bomba, tamanho o estrondo que senti. Fiquei completamente desorientada. O meu primeiro instinto foi chamar por Mariana, mas, para minha surpresa, não obtive resposta alguma. Talvez ainda estivesse a dormir. Uma parte da minha mente tentava convencer-se de que era só isso. Ela ainda estava a dormir.
Ao encontrar-me cega, rodeada pela escuridão, tento guiar-me pela casa - que já me era tão familiar - com braços esticados e passos cuidadosos, à procura de uma cadeira onde me pudesse sentar e descansar. É um apagão, pensei. Que mais poderia ser? Mas ao continuar a andar num corredor aparentemente interminável, apercebo-me de algo: não sei onde estou.
A minha voz resiste ao ímpeto de a calar, apavorada pela ideia de ser ouvida por um perigo iminente. Pergunto por alguém, imploro a presença de um outro. E assim que o pedi, ele apareceu. Foi assim que aprendi a não desejar o que desconheço.
Começo a fazer-lhe perguntas, mas sei que já não estou a ser coerente. Não percebo de onde é que ele veio. Ou onde estamos. E o que é feito de Mariana? Sem dizer uma palavra ele vai-se aproximando e já não consigo segurar as lágrimas. Tento afastá-lo, mas os seus olhos rubros prendem-me ao chão.
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