O meu corpo encolhe-se de forma a caber, formando uma vénia. No meu furor para o alcançar começo a sentir o suor a picar-me a pele como se tivesse uma colónia de formigas a percorrer-me o corpo. Metal cerca-me de tal maneira que sinto que estou a lamber o espaço à minha volta, uma sensação fresca e desagradável na minha boca.
Alcanço a minha mão na sua direção. Mas no momento em que os meus dedos esguios pousam sobre a sua superfície rugosa, o livro move-se, caindo para o abismo.
De repente, qualquer possibilidade de fuga desvanece-se, o impacto da queda do livro como se fosse um peso a esmagar-me. Encolhido, não consigo fazer mais nada senão chorar.
Tinta negra escorre sobre mim, molhada e química. Letras de palavras e palavras de frases que me aprisionam.
Penso em desistir. Agora que desperdicei a minha oportunidade, a primeira em anos, estou de volta à estaca zero. Mas não posso— não quando estive tão perto.
E por isso escrevo palavras sem sentido algum, sem algum sentido.
Palavras soltas que me invadem a mente. Escrevo para não me esquecer.
Mesmo sabendo que até estas serão esquecidas um dia.
E ainda assim desaparecem, como se eu não fosse. Porque eu não posso ser sem escrever. Eu sou composto por palavras.
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