quarta-feira, 11 de março de 2026

Estranhos são os javalis - última (?) edição

Aquela aula deveria ter sido igual a todas as outras. Era o início do segundo semestre na universidade e tudo me parecia calmo até ter entrado na sala e ver o professor a fazer o pino.

Mostrava à turma como era possível ver o mundo de outro ponto de vista.

Não era a primeira vez que via algo tão raro. Na licenciatura, tive um professor que fazia criação de javalis e que nos chegou a mostrar, em aula, alguns dos seus melhores exemplares. Claro, poderão dizer-me que javalis não são tão assustadores como chegar a uma sala e ver um professor qualquer a fazer o pino. Gente estranha, sabia-o, são como os javalis: há-los em todo o lado.

De pernas para o ar, enquanto arfava, o professor pedia-nos a todos que fizessemos o mesmo. Ficámos com dúvidas, calados. Ninguém percebia o objetivo daquela pedagogia. Até que pensei: o que é aprender senão tornamo-nos estranhos? Contrariamente ao que achava, o dia não estava mesmo a ser como os outros, antecipável, normal. E isso era bom. E, de qualquer das formas, agora que já lá estava, porque não? Deitei a mochila ao chão, disse: “vamos lá”. Levantei-me, pus as mãos no chão e atirei os pés para o ar. 

Procurei equilibrar-me e, lentamente, fui abrindo os olhos. Via as caras dos meus colegas com as bochechas inchadas e vermelhas. Os nossos cabelos, despenteados, caiam-nos ao chão, alguns eriçavam-se, como pelo selvagem. Cada um ganhava o seu equilibrio, uns contra a parede da sala, outros só com as suas mãos, como se andassemos sobre patas. Às vezes, chocavamos. Começámos a tentar empurrar-nos a ver quem se mantinha mais tempo em pé. E riamo-nos. Aos poucos, o mundo tornava-se menos estranho. 

Notei no professor que nos mirava. “Porquê?”, gritei eu, de cabeça para baixo. “Porquê fazer o pino e não a espargata, professor? Será o primeiro, na sua opinião, superior?”

O professor com o seu ar sábio apenas sorriu.

- Não, jovem. Mas dessa perspectiva qualquer pessoa baixa vê. Com a cabeça ao contrário, só os iluminados como nós vêem.

Estalou um burburinho entre os meus colegas. Reviamo-nos naquela visão que o professor nos falava. Sentia-se o entusiasmo no ar. À medida que o sangue me subia à cabeça, comecei a ver chifres de javali a sair da boca, primeiro, do professor e, depois, dos meus colegas. Aí, percebi finalmente: estranhos são os javalis.


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