A Raiva – reedição
Naquela manhã, o autocarro não passou às oito horas. Nem dez, nem vinte minutos depois. O que, para todos os efeitos, não lhe teria feito diferença, já que vinte horas antes havia sido despedido.
Se aquele autocarro já não fazia sequer parte da sua rotina, por que motivo se deveria preocupar em apanhá-lo?
“Agradecemos o seu contributo ao longo destes anos, porém não nos é mais necessário. Muito obrigado.” Simpatia empresarial. Para ele, apenas uma maneira chique de o despacharem.
Deixou-se cair desamparado no assento da paragem de autocarro. Observava os outros, que iam e vinham, seguindo as suas vidas. Não tinha para onde ir. Sabia que levantar-se naquela manhã fora apenas um reflexo de anos preso à mesma rotina. Mas e agora? Qual seria o seu próximo passo?
Já não nos é mais necessário. Aquelas palavras ficaram gravadas na sua mente. Como assim já não era necessário? Doze anos naquela empresa e fora esta a sua recompensa?
Levantou-se. Decidiu que iria passar pelos sítios onde fora mais feliz, onde se sentira mais vivo. Espairecer, para assim tomar uma decisão. Chamou um táxi e foi para o seu – agora – antigo trabalho. Fora feliz nas ruas por onde passou mas era, definitivamente, mais feliz nas paredes sufocantes da empresa.
Doze anos de trabalho.
Quando o haviam chamado ao gabinete, ficara deslumbrado: «Será agora? Serei finalmente o empregado do mês?», lembrava-se de ter pensado com os seus botões.
Chegou às portas de vidro do gigantesco edifício, onde encontrou o seu antigo colega, que detestava. Cumprimentou-o. Depois, deu-lhe um murro.
- Agora voltas ao escritório e pedes uma baixa, Armando. Pode ser que voltem a precisar de mim! - disse, triunfante.
Funcionário do mês. Sim, é mesmo isso que eu mereço ser!
Continuou pelo escritório adentro até à sala de refeições, onde costumava almoçar.
Nem subsídio de almoço eu recebia!
Agarrou na primeira faca que viu e subiu ao segundo piso. Já não nos é mais necessário. Dois doutoramentos e vinte anos de experiência no ramo já não são necessários!, cantarolava para si mesmo, quando entrou abruptamente no gabinete da sua antiga supervisora e lhe desferiu três golpes na barriga.
- Afinal os cortes no pessoal passam primeiro por ti, não é? Isso é que é dar sangue, suor e lágrimas pela empresa! - gritou, fazendo-se ouvir por entre o caos que se instalara no edifício.
Por entre os gritos de terror, uma ideia fez-se lúcida na sua mente. Claro que sou necessário. Sou tão necessário a esta empresa, que mereço um aumento!
Correu porta fora em busca do diretor da empresa que, já a par da situação, se escondera debaixo da sua secretária. Pensou que, se Alberto não o visse, simplesmente se fosse embora.
No entanto, Alberto, que descobriu rapidamente o diretor, agarrou-o e disse:
- Agora vais transferir todo o teu dinheiro para mim, seu cabrão mal-amado!
O diretor assim fez, clicando apressadamente nalgumas teclas do computador, enganando-se por vezes, tal era a força com que tremia.
Quando Alberto saiu do edifício, tinha-se tornado um homem rico.
Agora vocês é que não me são mais necessários!
No entanto, o entusiasmo durou pouco, pois Alberto era agora também um homem com problemas na justiça. Teve de pagar vários advogados, o que o levou de volta à estaca zero.
Eram agora, de novo, oito horas da manhã e Alberto, sem um tostão no bolso, precisava de ir a uma entrevista de emprego. O autocarro, como de costume, não aparecia.
Estou farto deste autocarro, vou mas é a pé!
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