terça-feira, 10 de março de 2026

Facto ou ficção- Reeditado

 FACTO OU FICÇÃO- 2ª EDIÇÃO


Era uma noite das mais tranquilas que o verão pode oferecer. A aragem noturna atravessa a brecha da velha janela da sala e despenteia a poupa de três cabelos loiros e finos do Zé. Após um dia de trabalho, senta-se no sofá e liga a televisão. 

Do cimo das escadas, Maria desce com pressa. Chega-se a Zé e com a sua mão delgada, mas firme, crava-lhe uma estalada na cara. Zé, sem saber do que se tratava, articula duas perguntas, sustento a dor:

-Quem és tu?! Que estás a fazer em minha casa?!

Maria responde:

-Quem sou eu? Deves estar a brincar comigo!

Zé, assustado por não saber quem era Maria, optou por ficar em silêncio e retribuir a pancada. Após um curto silêncio, Maria diz:

-Quando precisavas de alguém para fugires da tua mulher já sabias quem eu era!

-Mas que mulher?- ripostou ele.

Ficaram os dois a olhar um para o outro embasbacados. Após um breve momento de silêncio ensurdecedor, a câmara faz zoom-off do cenário e o episódio termina. São os últimos episódios da novela mais falada dos últimos tempos.

-Porra, o estalo era a brincar, não sabias?- disse António, acariciando a sua nova nódoa negra.

-Desculpa, entusiasmei-me - respondeu Antonieta com um ar dócil, mas orgulhoso do que fizera.

-A brincar ou não, vou ficar com uma marca na cara no mínimo uma semana. O que vou dizer à minha mulher?

-A tua mulher? Isso é problema teu! Ela não sabe que és ator? São os ossos do ofício- responde Antonieta indignada

-Vou já ligar-lhe para explicar a situação! Assim, ela fica a saber o perigo de trabalhar com uma maluca!- dispara António, mergulhando a sua mão no bolso das calças.

-Vai fazer queixinhas à tua mulher, vai!- Antonieta chega perto da bochecha roxa do seu colega e sussurra-lhe- Cá para mim gostaste do estalo, mas não confessas. 

-És completamente doida, Antonieta. Vou falar com o diretor e vais já ser despedida- sussurrou de volta António, não sem corar até às orelhas.

-Oh, António… Também não é caso para tanto, não é? Deixa-te disso, peço-te desculpas se fui “too much”- afasta os seus cabelos louros do pescoço, libertando uma fragrância sedutora- Aceitas o meu pedido, meu querido “Zé”?

-Está bem, minha querida “Maria”- responde Zé enquanto o seu olfato se sacia- Sabes, podíamos marcar umas aulas extra para praticar, percebes?

-Desde que não te queixes à tua mulher- disse ela enquanto lhe piscava o olho

-Não, fica entre o “Zé” e a “Maria”.


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Exercício 15: história triste em três palavras

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