"Manhãs Vazias" (anteriormente titulado "Pensamentos da Manhã, Mais um Gole") - 2ª edição
Dorothy começa as suas manhãs com um copo de vodka. É possível que isto seja um problema, mas sendo que tem dois empregos para pagar a renda, tenta não pensar muito no assunto. Só depois é que toma café.
Certos dias, um copo não chega, e a garrafa que já estava a meio fica mais vazia. Embora, não tão vazia como ela se sentia.
Porque quem é que aos trinta e seis ainda tem dois empregos? A Dorothy de vinte anos estaria decepcionada.
Se calhar devia fugir e tornar-se freira; podem ter uma vida bastante monótona, mas pelo menos têm um propósito.
"Sim, vou embora daqui amanhã e adoto uma vida em seclusão, a balbuciar disparates que servem para confortar pessoas como eu! Que mais posso eu fazer?"
O travo amargo do último gole de café assenta na sua boca e, com ele, desce de volta à realidade. Todos somos infelizes, corpos ausentes que se vendem ao trabalho na esperança de se tornarem um pouco mais. No seu caso, que mais lhe traria ser telefonista e empregada de mesa?
Há uma semana que John não aparece em casa. Tinha-lhe prometido que o trabalho na papelaria seria para ajudar com as contas. No entanto, ao notar as garrafas vazias, percebe que o filho não vai voltar.
Sempre que o telefone toca tem esperança que seja ele. É nessas raras ocasiões que quase deixa cair a garrafa para pegar, a toda a força e com as mãos quase a tremer, no raio do aparelho. Mas acaba sempre por ser o bronco do Robert.
Ora aí está um bom motivo para se tornar freira. Assim já não teria de aturar o ex-marido que a traiu... com a sua própria mãe.
Sem comentários:
Enviar um comentário