sexta-feira, 13 de março de 2026

Leitura do Livro do Carnaval - reedição

 

 Leitura do Livro do Carnaval

«Cristiano começou a preparar-se para o Carnaval. Retirou o seu fato predileto do armário, um fato roxo que esperou, ansiosamente, para poder usar neste feriado e convenceu Pedro, seu amigo de longa data, a mascarar-se de jumento. Com os acessos a Torres fechados, os amigos decidiram ir para a cidade de Quaresma.

Pelo caminho, encontraram um senhor barbudo, envolto de um manto azul. As palavras que saíam da boca do homem pareciam aleatórias e as frases pouco sentido tinham.  “Quem vestir hoje um fato roxo terá 10 anos de azar!” foi a única frase que conseguiram compreender na totalidade.

Pensando que o homem era louco, como tantos que se viam nestas alturas festivas, não fizeram caso, nem tampouco desconfiaram da sua sorte quando, a caminho de Quaresma o céu ficou negro. Cruzaram-se com uma mulher, que se apressando no sentido contrário, balbuciou:

­­­­­­               — Péssimo dia para se ir à Quaresma!

               Pensando apenas no traçadinho e nos finos bem gelados que beberiam na cidade, os amigos ignoraram a mulher e seguiram caminho até à cidade de Quaresma.

— Hoje é borga! — disse Pedro a Cristiano, longe de imaginar o que ainda estaria por vir.

Acabados de chegar, depararam-se com uma cidade completamente deserta. As máscaras amontoavam-se no chão, mas parecia não haver ninguém para as usar. Onde estariam as pessoas?

Tentaram procurar respostas, mas o céu fechou-se e, rapidamente, os dois amigos ficaram encharcados. Pedro, no seu disfarce de jumento, ficou preso na lama e culpou Cristiano por usar um fato roxo no Carnaval. Cristiano ignorou o comentário do amigo e ajudou-o a sair da lama, procurando, de seguida, abrigo.

Pedro continuou a gritar com Cristiano, mas este estava apenas a reparar que o seu fato começava a diluir-se e pensou ter-se livrado do seu azar. Ajoelhou-se e agradeceu ao Céu.

Quando tudo parecia já resolvido, a tinta roxa começou a manchar muitos dos outros disfarces no chão, e a chuva, que então parara, voltou. Nesse mesmo instante, Pedro voltou a enfurecer-se com o amigo:

— Isto é tudo culpa tua, Cristiano! Maldita a hora em que escolheste essa porcaria de fato!

— O quê? Vais dizer que o Deus do Carnaval não gosta de fatos roxos? Que disparate! Se assim fosse, um raio cairia na minha cabeça mesmo agora! — gritou Cristiano, enfurecido com a acusação do amigo.

Bem-dito, bem-feito. Dos céus, caiu um raio tão potente na cabeça de Cristiano que este se desintegrou, sobre a tinta roxa que sobrara do seu fato.

Pedro tentou fugir, na esperança de evitar um fatídico fim como o do seu amigo, porém o seu fato ensopado não o permitiu ir muito longe. Parecia não haver mais volta a dar: a maldição, anunciada a caminho de Quaresma, continuava e Pedro não sabia como quebrá-la.»

Gustavo fechou o livro, enquanto ouvia a sua mãe a chamá-lo para o jantar.

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  —  Agora só amanhã.