Leitura do Livro do Carnaval
«Cristiano
começou a preparar-se para o Carnaval. Retirou o seu fato predileto do armário,
um fato roxo que esperou, ansiosamente, para poder usar neste feriado e
convenceu Pedro, seu amigo de longa data, a mascarar-se de jumento. Com os
acessos a Torres fechados, os amigos decidiram ir para a cidade de Quaresma.
Pelo caminho,
encontraram um senhor barbudo, envolto de um manto azul. As palavras que saíam
da boca do homem pareciam aleatórias e as frases pouco sentido tinham. “Quem vestir hoje um fato roxo terá 10 anos
de azar!” foi a única frase que conseguiram compreender na totalidade.
Pensando que o
homem era louco, como tantos que se viam nestas alturas festivas, não fizeram
caso, nem tampouco desconfiaram da sua sorte quando, a caminho de Quaresma o
céu ficou negro. Cruzaram-se com uma mulher, que se apressando no sentido
contrário, balbuciou:
— Péssimo dia para se ir à Quaresma!
Pensando
apenas no traçadinho e nos finos bem gelados que beberiam na cidade, os amigos
ignoraram a mulher e seguiram caminho até à cidade de Quaresma.
— Hoje é
borga! — disse Pedro a Cristiano, longe de imaginar o que ainda estaria por
vir.
Acabados de
chegar, depararam-se com uma cidade completamente deserta. As máscaras
amontoavam-se no chão, mas parecia não haver ninguém para as usar. Onde
estariam as pessoas?
Tentaram
procurar respostas, mas o céu fechou-se e, rapidamente, os dois amigos ficaram
encharcados. Pedro, no seu disfarce de jumento, ficou preso na lama e culpou
Cristiano por usar um fato roxo no Carnaval. Cristiano ignorou o comentário do
amigo e ajudou-o a sair da lama, procurando, de seguida, abrigo.
Pedro
continuou a gritar com Cristiano, mas este estava apenas a reparar que o seu
fato começava a diluir-se e pensou ter-se livrado do seu azar. Ajoelhou-se e
agradeceu ao Céu.
Quando tudo
parecia já resolvido, a tinta roxa começou a manchar muitos dos outros
disfarces no chão, e a chuva, que então parara, voltou. Nesse mesmo instante,
Pedro voltou a enfurecer-se com o amigo:
— Isto é tudo
culpa tua, Cristiano! Maldita a hora em que escolheste essa porcaria de fato!
— O quê? Vais
dizer que o Deus do Carnaval não gosta de fatos roxos? Que disparate! Se assim
fosse, um raio cairia na minha cabeça mesmo agora! — gritou Cristiano,
enfurecido com a acusação do amigo.
Bem-dito,
bem-feito. Dos céus, caiu um raio tão potente na cabeça de Cristiano que este
se desintegrou, sobre a tinta roxa que sobrara do seu fato.
Pedro tentou
fugir, na esperança de evitar um fatídico fim como o do seu amigo, porém o seu
fato ensopado não o permitiu ir muito longe. Parecia não haver mais volta a
dar: a maldição, anunciada a caminho de Quaresma, continuava e Pedro não sabia
como quebrá-la.»
Gustavo fechou
o livro, enquanto ouvia a sua mãe a chamá-lo para o jantar.
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