Virada do Avesso, versão super editada
Ontem acreditava no Pai Natal, no Coelhinho da Páscoa, na Fada dos Dentes e em tantas outras figuras fantásticas de que o leitor se possa lembrar. Enfim, acreditava naquela harmonia infinita, tranquila. Era feliz! Hoje, o meu mundo tal como o conhecia, desmoronou.
Acordei de manhã, pelas 6.45. A mesma hora desde que comecei a trabalhar no banco. Todos os dias úteis, religiosamente, a rotina tem sido a mesma: acordo ao som do despertador, deixo-me ficar na cama durante oito minutos a despertar e levanto-me já sem sono. Igual a todas as pessoas - imagino - tomo banho, como um pequeno almoço composto por cereais e leite, lavo os dentes e saio para trabalhar.
Quando quis comprar casa, os preços eram acessíveis. Escolhi a Álvares Cabral, porque estava muito perto do meu trabalho. Pensei que, mesmo mudando a morada do lugar onde passava os dias a trabalhar, a casa estaria bem localizada e isso era importante. A Fortuna abençoou-me, o banco onde trabalho ainda hoje está no Rato. Assim, a deslocação matinal dura uns breves cinco minutos.
Tudo fica perto de casa. Ao sábado, acordo igualmente cedo e aproveito a manhã no Jardim da Estrela. Adoro sentar-me num banco, ler e respirar. Só se consegue ao sábado de manhã, quando os pais estão ocupados a levar os filhos a tantas atividades que estes têm, nenhuma das quais no jardim. Ao domingo de manhã, parece que há uma certa apetência para estas criaturas libertarem as frustrações de dentro de si na forma mais audível possível, pelo que sempre fico em casa.
Num dia ou noutro - nunca nos dois - almoço num restaurantezinho ali perto, na rua de S. Bernardo. Nunca percebi se esta rua deve o seu nome ao santo francês ou aos cães. Seja como for, não só a rua está abençoada como também o restaurante onde vou: a comida é divinal.
As tardes de sábado são dinâmicas: no primeiro sábado, rumo à Biblioteca da Ajuda onde participo no clube de leitura; no segundo sábado do mês, separo roupas numa associação perto do Marquês; ao terceiro, leio poesia na Casa Fernando Pessoa; ao quarto, ajudo a Refood na limpeza das instalações. Quando há cinco sábados no mês, tenho um dia de aventuras: nunca sei o que pode acontecer, depende da agenda desse mês. O dia culmina sempre no teatro, seja no S. Luiz, no Trindade ou em qualquer outro.
Nos domingos não há tanta aventura. Geralmente tomo conta da casa, para que no dia seguinte a semana comece tranquila, com a roupa passada, a sala arejada e as plantas bem regadas.
Pode o leitor encontrar monotonia nesta vida. Da minha parte, apenas vejo a segurança de não ter de planear, a eficiência de tempos não perdidos, a tranquilidade da ausência do erro. Haverá algo melhor que acordar de manhã e saber exatamente como é que o dia vai acontecer? Porque quando há imprevistos, geralmente não são bons.
Vejamos os imprevistos da minha vida. Na infância, todos os dias saía para a escola e regressava para almoçar por volta das 13.30. Todos os dias chegava a casa e sentia o cheiro da carne cozinhada no velho fogão da minha mãe, para mim e para os meus quatro irmãos mais velhos. Todos os dias, partilhava com eles esta breve refeição. Até que um dia, um imprevisto mudou a tranquilidade.
Não consegui regressar da escola à mesma hora que os meus irmãos: a minha turma ficou fechada dentro da sala de aula, castigo imposto pelo desaparecimento dos óculos da Maria. Não sei porquê tanto alarido, ela já os tinha há vários meses e raramente os usava - apesar da mãe ter ido falar com a professora sobre esse assunto. Mas quando desapareceram, aí sim, todos tivemos de dar atenção ao caso. Se foi o Miguel, por vingança da Maria não ter retribuído o seu beijo; se foi a Joana por achar que os óculos da Maria rivalizavam com os seus; ou se foi a Teresa para se vingar da nota mais alta no teste de Estudo do Meio, nunca descobrimos.
O que é certo é que ficámos todos retidos, com os estômagos a roncar de fome, até a professora desistir quando intuiu que podia ter sido a própria Maria a fazer desaparecer tal preciosidade.
Chegada a casa, os bombeiros não me deixaram entrar. Nem as chamas me permitiam a passagem. Labaredas consumiam a pequena casa onde todos devíamos estar a deliciar-nos com a fabulosa feijoada da minha mãe. Foram todos para outro mundo, e ao que parece, sem sequer terem apreciado o almoço. Fiquei eu, depois em casa dos meus tios, a lamentar pelos óculos da Maria.
Hoje, o destino voltou a querer saber de mim. Na pausa da manhã, ainda antes de ter dado o primeiro gole naquela chávena de líquido escuro e escaldante, o meu corpo perdeu as energias e eu, os sentidos. Chávena derramada em cima de mim, chamada para o 112, paramédicos a prenderem-me à maca; retomo a consciência já no hospital. Um médico, dois objetivos: tratar das queimaduras e perceber a causa do desmaio.
Lá fora já anoitece. Entro na casa de banho para me olhar ao espelho enquanto aplico o creme nas queimaduras do braço. Quando acabo, mando um whatsapp ao meu diretor: “amanhã não vou trabalhar”. Não sei se regresso. Aliás, sei - não regresso. Nem ao trabalho, nem às rotinas. E nem vou avisar ninguém da minha ausência.
Amanhã, quando acordar, à hora que o meu corpo quiser, e mesmo sem tomar banho nem pequeno almoço, vou à rua da Escola Politécnica onde sei que há uma agência de viagens. Comprarei uma passagem aérea, vou deixar a senhora simpática que lá atende escolher. Na mala, levarei pouca roupa, dois livros e uma vontade de viver imprevisivelmente os seis a oito meses de vida que ontem o médico me anunciou.
Ana Correia Soares
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