segunda-feira, 2 de março de 2026

O cadáver que fumava - texto bruto e editado

 

O cadáver que fumava – Bruto

Café forte acompanhado de um pastel de nata. Esse sempre fora o pedido de Daphne na pastelaria da rua. Até àquele fatídico dia. [Beatriz E.]

Dia 11 de junho de 2017. O dia em que a sua mãe morrera, E que mudou tudo. Até simples pedidos de pastelaria. [Carolina]

Esta mudança inusitada foi atendida pelo próprio dono da pastelaria, Que olha para ela com uma expressão de quem está pronto para a expulsar dali para fora. [Matilde M.]

- Quero um maço de cigarros, por favor.

- Vai passear, rapariga, aqui não se vende tabaco a putos de 14 anos. [Sara]

- A minha mãe faleceu hoje e fumava todos os dias, foi o meu padrasto que me pediu para vir comprar.

O dono fica petrificado a olhar para a rapariga, os seus olhos verdes presos nos seus. Com um suspiro vira-lhe as costas e pega no maço. [Bárbara]

- Que não te apanhem com isto, rapariga, ou vais meter-nos a ambos em sarilhos. Agradeci, saindo para fora e pegando na minha bicicleta, enquanto a campainha do café ainda tilintava. Segui direção à morgue. [Joana]

Quando lá cheguei, escondi o tabaco na mala. Estava um pouco amassado, porque o tinha posto no bolso de trás das calças durante a viagem. [Beatriz U.]

Não foi difícil encontrar o corpo da minha mãe. Saquei de um cigarro, pulo na sua boca, e acendi. com o isqueiro velho que o meu padrasto guardava em cima da lareira. [Maria Inês Alves]

 

 


O cadáver que fumava – Editado

 

Café forte acompanhado de um pastel de nata. Esse sempre fora o pedido de Daphne na pastelaria da rua. Até àquele fatídico dia.

Dia 11 de junho de 2017. O dia em que a sua mãe morrera – e que mudara tudo. Até os mais simples pedidos numa pastelaria.

A mudança inusitada foi atendida pelo próprio dono do estabelecimento, que a olhou com uma expressão carregada de desconfiança, quase como se estivesse prestes a expulsá-la dali.

— Quero um maço de cigarros, por favor.

— Vai passear, rapariga. Aqui não se vende tabaco a miúdos de 14 anos.

— A minha mãe faleceu hoje e fumava todos os dias. Foi o meu padrasto que me pediu para vir comprar.

O dono ficou petrificado, os olhos verdes cravados nos dela. Depois de um suspiro pesado, virou-lhe as costas e pegou num maço atrás do balcão.

— Que não te apanhem com isto, rapariga, ou vais meter-nos aos dois em sarilhos.

Daphne agradeceu com um aceno breve, saiu apressada e pegou na bicicleta, enquanto a campainha da porta ainda tilintava atrás de si. Seguiu em direção à morgue.

Quando lá chegou, escondeu o tabaco na mala. O maço estava um pouco amassado - tinha-o enfiado no bolso de trás das calças durante o percurso.

Não foi difícil encontrar o corpo da mãe. A sala estava fria, demasiado silenciosa. Daphne tirou um cigarro do maço, colocou-o entre os lábios pálidos da mulher e acendeu-o com o isqueiro velho que o padrasto guardava em cima da lareira.

O fumo começou a subir lentamente, desenhando espirais no ar imóvel da morgue. Durante alguns segundos, parecia que o peito da morta poderia voltar a erguer-se. Daphne ficou a olhar, imóvel, como se aquele gesto absurdo fosse a única forma que encontrara de adiar o peso definitivo da despedida.

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