O cadáver que fumava – Bruto
Café forte acompanhado de um pastel de nata. Esse sempre
fora o pedido de Daphne na pastelaria da rua. Até àquele fatídico dia. [Beatriz
E.]
Dia 11 de junho de 2017. O dia em que a sua mãe
morrera, E que mudou tudo. Até simples pedidos de pastelaria. [Carolina]
Esta mudança inusitada foi atendida pelo próprio dono da
pastelaria, Que olha para ela com uma expressão de quem está pronto para a
expulsar dali para fora. [Matilde M.]
- Quero um maço de cigarros, por favor.
- Vai passear, rapariga, aqui não se vende tabaco a putos de 14
anos. [Sara]
- A minha mãe faleceu hoje e fumava todos os dias, foi o
meu padrasto que me pediu para vir comprar.
O dono fica petrificado a olhar para a rapariga, os seus
olhos verdes presos nos seus. Com um suspiro vira-lhe as costas e pega no maço.
[Bárbara]
- Que não te apanhem com isto, rapariga, ou vais meter-nos a ambos
em sarilhos. Agradeci, saindo para fora e pegando na minha bicicleta, enquanto
a campainha do café ainda tilintava. Segui direção à morgue. [Joana]
Quando lá cheguei, escondi
o tabaco na mala. Estava um pouco amassado, porque o tinha posto no bolso de
trás das calças durante a viagem. [Beatriz U.]
Não foi difícil encontrar o corpo da minha mãe. Saquei de um
cigarro, pulo na sua boca, e acendi. com o isqueiro velho que o meu padrasto
guardava em cima da lareira. [Maria Inês Alves]
O cadáver que fumava – Editado
Café forte acompanhado de um pastel de nata. Esse sempre
fora o pedido de Daphne na pastelaria da rua. Até àquele fatídico dia.
Dia 11 de junho de 2017. O dia em que a sua mãe morrera – e
que mudara tudo. Até os mais simples pedidos numa pastelaria.
A mudança inusitada foi atendida pelo próprio dono do
estabelecimento, que a olhou com uma expressão carregada de desconfiança, quase
como se estivesse prestes a expulsá-la dali.
— Quero um maço de cigarros, por favor.
— Vai passear, rapariga. Aqui não se vende tabaco a miúdos
de 14 anos.
— A minha mãe faleceu hoje e fumava todos os dias. Foi o
meu padrasto que me pediu para vir comprar.
O dono ficou petrificado, os olhos verdes cravados nos
dela. Depois de um suspiro pesado, virou-lhe as costas e pegou num maço atrás
do balcão.
— Que não te apanhem com isto, rapariga, ou vais meter-nos
aos dois em sarilhos.
Daphne agradeceu com um aceno breve, saiu apressada e pegou
na bicicleta, enquanto a campainha da porta ainda tilintava atrás de si. Seguiu
em direção à morgue.
Quando lá chegou, escondeu o tabaco na mala. O maço estava
um pouco amassado - tinha-o enfiado no bolso de trás das calças durante o
percurso.
Não foi difícil encontrar o corpo da mãe. A sala estava
fria, demasiado silenciosa. Daphne tirou um cigarro do maço, colocou-o entre os
lábios pálidos da mulher e acendeu-o com o isqueiro velho que o padrasto
guardava em cima da lareira.
O fumo começou a subir lentamente, desenhando espirais no
ar imóvel da morgue. Durante alguns segundos, parecia que o peito da morta
poderia voltar a erguer-se. Daphne ficou a olhar, imóvel, como se aquele gesto
absurdo fosse a única forma que encontrara de adiar o peso definitivo da
despedida.
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