quarta-feira, 11 de março de 2026

"Pequenino, pequenino", reeditado


 Pequenino, pequenino 


Era uma vez um menino muito pequenino, tão pequenino que os pais quase se esqueceram de lhe dar nome.  

Quase.  

Mas deram, e era José. José Augusto. 

Como todas as crianças, o José Augusto foi para a escola, e aí é que começou o seu terror. Quando os professores sugeriam que a turma formasse equipas, ele era o último a ser escolhido. Nos intervalos, os colegas não queriam brincar com ele. Aliás, se lhe perguntassem, ele dir-vos-ia que podia contar com uma das suas pequenas mãos as vezes em que lhe tinham perguntado se queria juntar-se à brincadeira. Mas com isso ele não se importava (ou, pelo menos, fazia de conta). Na verdade, a cruz do José Augusto era esta: ao almoço, as senhoras do refeitório esqueciam-se de lhe encher o tabuleiro. Ele era pequeno, disso ele sabia. Mas será que ninguém, nem mesmo as senhoras amáveis que de bom grado despejavam sopa no prato dos outros meninos, conseguia vê-lo? Essa era a pergunta que o inquietava.  

Um dia, enquanto via um jogo de futebol no recreio, o José Augusto levou com a bola na cabeça. Será que não o tinham visto? Ou será que só o tinham confundido com o apanha-bolas? O José Augusto não sabia. Tudo o que sabia era que se sentia como se tivesse sido atingido por um meteoro, e por isso deixou-se cair, lentamente, com uma sensação estranha a crescer no seu minúsculo corpo.  

Quem sabe quanto tempo esteve estendido no chão, rodeado por uma dúzia de formigas? O próprio José Augusto não fazia ideia.  

Ninguém parecia ter reparado na sua queda. Até que...  

Eis que um braço comprido se estendeu na sua direção. 

Os olhos do José Augusto arregalaram-se, redondos e pequenos como berlindes. Estaria alguém a ajudá-lo? Teria mesmo reparado nele? 

Foi então que a viu: uma menina muito grande, alta como um poste, a sorrir para ele. E, antes mesmo que ele pudesse dizer alguma coisa, ofereceu-lhe um dedo para se apoiar, ajudando-o a levantar-se.  

— Eu sou a Clara — disse-lhe ela, e começaram a andar. 

O José Augusto seguia-a, o seu braço muito esticado para não perder o apoio da menina que lhe perguntava se ele precisava de ir à enfermeira. Enquanto caminhavam — à vez, porque sempre que a Clara dava um passo, tinha de esperar que o José Augusto desse cinquenta —, ela contou-lhe que já tinha pensado convidá-lo para brincar, mas que tinha tido medo de o assustar com a sua altura. O menino sorriu: afinal ela não só o via, como o percebia.  

     Ao percorrerem o recreio, um pouco aos solavancos, o José Augusto percebeu que, pela primeira vez na sua curta vidatodos — os seus colegas, os professores, até as senhoras do refeitório, que estavam na rua a almoçar — olhavam para ele. Todos o viam. A ele e à Clara.

Formavam um par estranho, os dois amigos com as proporções todas do avesso, mas que, afinal de contas, fazia sentido. E, por isso, continuaram juntos até à enfermaria, onde a Clara ajudou o José Augusto a subir o único degrau até à porta. Depois disso, e apesar de a sua amizade ter sido quase à distância, nunca mais se largaram.

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