quarta-feira, 11 de março de 2026

Bonus pater familias, reeditado

 

O meu pai sempre foi um homem muito mentiroso. Creio que não o era por maldade, mas por cobardia.

Enfrentar a realidade é difícil para muita gente e parece-me que ele se convencia de que a mentira correspondia a um ato de piedade em relação ao seu interlocutor. Ou então era simplesmente um grande mentiroso. Exatamente por isso, não mentir foi a grande lição que ele, sem saber, me legou.

O espelho que enfrento reflete a mesma curva que adornava o seu nariz, o meu cabelo contorce-se num padrão familiar, mas a minha boca jamais se move com o intuito de enganar. Uma grande distância nasceu entre nós através do vazio que ele criou com tantas palavras mortas.

Foi, portanto, difícil para mim responder-lhe à pergunta: fui um bom pai para ti? Procuraria ele uma validação da imagem completamente distorcida que tinha de si próprio? Esperaria de mim um ato de misericórdia?

Retorqui com outra questão: fui o filho que esperavas? 

O que ouvi da sua boca foi surpreendente. Não porque, num momento de iluminação, me tivesse dito algo que se pudesse associar à verdade, mas por razões mais inusitadas. Respondeu que me adorava e que se orgulhava da pessoa em que me tinha tornado.  

Mas como se pode adorar alguém que nem se parece conhecer?

–  E tu? Foste um bom pai para mim? – perguntei-lhe.

Quando acordei, levei algum tempo a perceber que estava deitado no sofá de Alice e que à minha frente não se encontrava o meu pai, mas sim uma televisão que transmitia as televendas. Uma senhora garantia-me que um determinado trem de cozinha iria mudar a minha vida.

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Exercício 15: história triste em três palavras

  —  Agora só amanhã.