O meu pai sempre foi um homem
muito mentiroso. Creio que não o era por maldade, mas por cobardia.
Enfrentar a realidade é difícil
para muita gente e parece-me que ele se convencia de que a mentira correspondia
a um ato de piedade em relação ao seu interlocutor. Ou então era simplesmente
um grande mentiroso. Exatamente por isso, não mentir foi a grande lição que ele,
sem saber, me legou.
O espelho que enfrento reflete a
mesma curva que adornava o seu nariz, o meu cabelo contorce-se num padrão
familiar, mas a minha boca jamais se move com o intuito de enganar. Uma grande
distância nasceu entre nós através do vazio que ele criou com tantas palavras
mortas.
Foi, portanto, difícil para mim
responder-lhe à pergunta: fui um bom pai para ti? Procuraria ele uma
validação da imagem completamente distorcida que tinha de si próprio? Esperaria
de mim um ato de misericórdia?
Retorqui com outra questão: fui
o filho que esperavas?
O que ouvi da sua boca foi
surpreendente. Não porque, num momento de iluminação, me tivesse dito algo que
se pudesse associar à verdade, mas por razões mais inusitadas. Respondeu que me
adorava e que se orgulhava da pessoa em que me tinha tornado.
Mas como se pode adorar alguém
que nem se parece conhecer?
– E tu? Foste um bom
pai para mim? – perguntei-lhe.
Quando acordei, levei algum tempo
a perceber que estava deitado no sofá de Alice e que à minha frente não se
encontrava o meu pai, mas sim uma televisão que transmitia as televendas. Uma
senhora garantia-me que um determinado trem de cozinha iria mudar a minha vida.
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