sexta-feira, 3 de abril de 2026

Exercício 12- 3 vozes na literatura

Recentemente, decidi aventurar-me pela magnum opus do Victor Hugo, Os Miseráveis. Uma passagem em particular comoveu-me de uma maneira que nem tudo consegue:

“Agora, o que sucedera?

Escorregou, caiu, e foi-se.

Está na imensidão das águas. Debaixo dos pés, já só tem algo que foge e que se desmorona. As ondas rasgadas e picadas pelo vento cercam-no horrorosamente; as oscilações do abismo arrastam-no, todos os farrapos de água se agitam em torno da sua cabeça; um montão de vagas cospe-lhe em cima, enquanto confusas cavidades devoram metade dele; cada vez que mergulha, vislumbra precipícios repletos de noite, e sente-se preso por medonhas vegetações desconhecidas que lhe atam os pés e o puxam para elas; sente que se torna abismo, que faz parte da espuma, que as ondas o lançam de uma para a outra; bebe amargura; o cobarde oceano obstina-se em afogá-lo, e a enormidade brinca com a sua agonia. É como se toda esta água fosse ódio.” (p. 92)

Com Victor Hugo, não existe propriamente um crescendo, é tudo extremos constantes, acentuados e quase ruidosos, de uma forma impactante. A escrita dele não é excessiva, mas apela à humanidade de cada um dos seus leitores. No pequeno excerto que inseri aqui, Hugo apresenta uma grande talento para linguagem imagética; mesmo que não possamos identificar-nos com a situação específica que está a ser representada, somos arrebatados por emoções guturais, tão profundas como se fôssemos o sujeito em sofrimento. Não há dúvidas do que ele nos quer fazer sentir.

P.S. Li a edição da Relógio D'Água, para referência. A citação encontra-se no primeiro volume.


Um dos primeiros livros que li este ano foi The Dud Avocado de Elaine Dundy. Pode não ser uma autora famosa e de grande renome, mas creio que, se uma voz mostra ser tão distinta quanto a que se encontra neste livro, deve-se dar a conhecer. Nunca tinha ouvido falar nem da autora nem do livro até entrar numa Waterstones e os meus olhos verem-se magnetizados pela capa, tão chamativa e cheia de cores berrantes (coloco aqui a imagem).


Pensei para mim mesma "Será que o interior é tão divertido quanto o exterior?". E assim, apesar de já terminar a minha viagem com mais livros do que neurónios, percebi que seria impossível sair de lá sem o comprar e ver por mim mesma. É difícil conseguir capturar a voz de uma autora que apenas se leu uma vez, e, no entanto, a dela é tão expressiva e notável (neste livro, especificamente) que acabamos por sentir que já lemos tudo o que precisamos de ler para conhecermos as idiossincrasias e maquinações da mente (ou forma/estilo) da autora. Adorei a forma como a Dundy criou uma personagem tão carismática e simultaneamente frustrante, colocando-a num ambiente fascinante de transformação constante. Poderia-se fazer em certos pontos uma comparação com The Great Gatsby, quer seja pela atmosfera muitas vezes frenética e aliciante, ou pela protagonista, que navega caoticamente pela vida, neste caso pelas ruas de Paris (e não só); fora isto, é uma obra principalmente cómica, com um espírito crítico e mordaz. Sentimo-nos os confidentes de Sally Jay Gorce, precisamente porque Dundy faz com que o tom do livro pareça o de uma amiga a desabafar e mexericar connosco; é uma escrita muitas vezes exagerada e romantizada, perfeitamente alinhada com o tema de bildungsroman que emerge com as aventuras e desventuras da nossa narradora/protagonista. Elaine Dundy é uma autora que mais pessoas deveriam conhecer, recomendo! Para responder o mais diretamente à minha pergunta inicial— sim, absolutamente.




Por último, J. R. R. Tolkien é um autor que eu admiro muito, especialmente o seu estilo descritivo e a maneira como ele consegue elevar as coisas mais simples. Por exemplo, este pequeno excerto de The Lord of the Rings: The Two Towers:

"Drawing a deep breath they passed inside. In a few steps they were in utter and impenetrable dark. Not since the lightless passages of Moria had Frodo or Sam known such darkness, and if possible here it was deeper and denser. There, there were airs moving, and echoes, and a sense of space. Here the air was still, stagnant, heavy, and sound fell dead. They walked as it were in a black vapour wrought of veritable darkness itself that, as it was breathed, brought blindness not only to the eyes but to the mind, so that even the memory of colours and of forms and of any light faded out of thought. Night always had been, and always would be, and night was all." (p. 720)

Tolkien claramente acredita que a linguagem serve para conscientizar o poder imaginativo do leitor, gerar um reconhecimento e sensação espacial de um mundo fictício (mas em muitos aspetos semelhante ao nosso); para ele, a escrita e a linguagem literária são um ofício de adoração e grandiosidade. A escrita dele cria um padrão narrativo convidativo, sujeito à proatividade do leitor em entender a linguagem rica e cheia de metáforas que ele usa. Essencialmente, Tolkien procura sempre oferecer uma experiência sensorial total.




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