Comecei
a ouvir música cedo, com os livros a fazer de pauta. Passados por primos mais
velhos ou encontrados na parte de trás, dentro de um armário, da sala de aula
da escola primária, os livros de Uma Aventura foram essenciais para o
desenvolvimento do meu gosto por ler. Não os li quando a eles tive acesso, logo
no início da primária, mas olhava para eles com o objetivo de os conseguir, um
dia, compreender.
Se
muito falamos em “grandes autores” ou “autores fortes” e associamos estes
termos a, por exemplo, Saramago, Pessoa, Agustina Bessa-Luís (e não
erradamente), o cânone literário português não me parece esgotar-se na “literatura
dos crescidos”. Lemos porque é um hábito, cultivado por terceiros ou "auto-plantado".
Se desde novos o temos, não começámos, certamente, a ler clássicos (quem
começou que se acuse, nos comentários). Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada surgem
(pelo menos para mim, acusem-se, novamente, nos comentários) como as cabecilhas
de um cânone infantojuvenil português. Surgem quase como um só autor, um nome
próprio ou composto que escreve numa só voz e que leva muito mais do que 5
jovens a várias partes do país.
Paralelamente,
e como muito se vê na Gen Z, comecei a ler literatura estrangeira,
implementando-se como hobbie quase obsessivo a leitura da saga de Harry
Potter. J.K. Rowling oferece aos leitores (que se estendem por todas as
faixas etárias (não iremos aqui discutir o enquadramento dos livros, embora o
tivesse já classificado como infantojuvenil, ups!)) mais do que o
acompanhamento de um órfão que se descobre feiticeiro, isto é, alarga o imaginário
de quem lê e abre a possibilidade de nos inserirmos no seu universo, muito
graças à magnitude que ganhou a obra e que, rapidamente, se tornou marca. Frequentemente,
abordamos a temática monetária no mestrado: J.K. Rowling (podem também discutir
nos comentários a polémica da pertença da obra à autora) vem mostrar que é
possível fazer um sem fragilizar o outro: quanto mais a marca aumenta, mais
livros surgem dela derivados.
Comparando,
enquanto a saga Harry Potter me fazia desenvolver um mundo imaginário
ou, mais concretamente, inserir-me naquele que foi mostrado nos filmes, Uma
Aventura levava-me a lugares concretos que, ainda hoje, são na minha mente
um pouco como os que li nos livros: revisito o Ribatejo, o Porto, a Serra da
Estrela, mas não revisito Hogwarts, imagino-o.
A
principal diferença entre estas «sagas» não é apenas a proximidade que
estabeleci com cada uma delas, mas a ligação que Harry Potter fazia com
o meu imaginário, que contrastava (e contrasta) com ligação de Uma Aventura
às experiências que ia vivendo. Crescer com estas duas coleções é crescer com
dois grandes motes da literatura: ora desligar-nos do mundo em que vivemos, ora
aproximarmo-nos deste.
Nota:
“Somos filhos do aquário em que nascemos”, por isso, é possível que a escolha
de autoras contemporâneas possa não estabelecer uma ligação automática com
todos. A maior referência desta escrita é a memória, mas podem encontrar Uma
Aventura publicada pela Caminho (em anexo, segue uma imagem de um exemplar
com algumas marcas de guerra); quanto à saga Harry Potter, os livros foram
emprestados, mas não faltam edições em qualquer livraria.
Matilde Cabana
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