segunda-feira, 13 de abril de 2026

Exercício 12 – o musical infantojuvenil


Comecei a ouvir música cedo, com os livros a fazer de pauta. Passados por primos mais velhos ou encontrados na parte de trás, dentro de um armário, da sala de aula da escola primária, os livros de Uma Aventura foram essenciais para o desenvolvimento do meu gosto por ler. Não os li quando a eles tive acesso, logo no início da primária, mas olhava para eles com o objetivo de os conseguir, um dia, compreender.

Se muito falamos em “grandes autores” ou “autores fortes” e associamos estes termos a, por exemplo, Saramago, Pessoa, Agustina Bessa-Luís (e não erradamente), o cânone literário português não me parece esgotar-se na “literatura dos crescidos”. Lemos porque é um hábito, cultivado por terceiros ou "auto-plantado". Se desde novos o temos, não começámos, certamente, a ler clássicos (quem começou que se acuse, nos comentários). Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada surgem (pelo menos para mim, acusem-se, novamente, nos comentários) como as cabecilhas de um cânone infantojuvenil português. Surgem quase como um só autor, um nome próprio ou composto que escreve numa só voz e que leva muito mais do que 5 jovens a várias partes do país.

Paralelamente, e como muito se vê na Gen Z, comecei a ler literatura estrangeira, implementando-se como hobbie quase obsessivo a leitura da saga de Harry Potter. J.K. Rowling oferece aos leitores (que se estendem por todas as faixas etárias (não iremos aqui discutir o enquadramento dos livros, embora o tivesse já classificado como infantojuvenil, ups!)) mais do que o acompanhamento de um órfão que se descobre feiticeiro, isto é, alarga o imaginário de quem lê e abre a possibilidade de nos inserirmos no seu universo, muito graças à magnitude que ganhou a obra e que, rapidamente, se tornou marca. Frequentemente, abordamos a temática monetária no mestrado: J.K. Rowling (podem também discutir nos comentários a polémica da pertença da obra à autora) vem mostrar que é possível fazer um sem fragilizar o outro: quanto mais a marca aumenta, mais livros surgem dela derivados.

Comparando, enquanto a saga Harry Potter me fazia desenvolver um mundo imaginário ou, mais concretamente, inserir-me naquele que foi mostrado nos filmes, Uma Aventura levava-me a lugares concretos que, ainda hoje, são na minha mente um pouco como os que li nos livros: revisito o Ribatejo, o Porto, a Serra da Estrela, mas não revisito Hogwarts, imagino-o.  

A principal diferença entre estas «sagas» não é apenas a proximidade que estabeleci com cada uma delas, mas a ligação que Harry Potter fazia com o meu imaginário, que contrastava (e contrasta) com ligação de Uma Aventura às experiências que ia vivendo. Crescer com estas duas coleções é crescer com dois grandes motes da literatura: ora desligar-nos do mundo em que vivemos, ora aproximarmo-nos deste.

 

Nota: “Somos filhos do aquário em que nascemos”, por isso, é possível que a escolha de autoras contemporâneas possa não estabelecer uma ligação automática com todos. A maior referência desta escrita é a memória, mas podem encontrar Uma Aventura publicada pela Caminho (em anexo, segue uma imagem de um exemplar com algumas marcas de guerra); quanto à saga Harry Potter, os livros foram emprestados, mas não faltam edições em qualquer livraria.

            Matilde Cabana








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