sábado, 4 de abril de 2026

Exercício 12 - A Voz de Dois Autores

 

Escolhi dois autores que tenho lido muito nos últimos tempos e que estão entre os meus favoritos (e entre os favoritos de muitos outros leitores). Para não complicarmos isto geograficamente, fizeram o favor de nascer ambos na mesma ilha.

Comecemos, respeitando a cronologia, por Jane Austen. Tomemos como referência uma das frases de abertura mais conhecidas da história da literatura mundial:

“É uma verdade universalmente reconhecida que um homem rico e solteiro precisa de uma esposa.”

Quem está aqui a falar? Será esta, de facto, a opinião do narrador de Orgulho e Preconceito? Ou estará este apenas a reproduzir a voz da sociedade da época? E, reproduzindo-a, não estará desde logo – através da forma como nos fala - a emitir um juízo sobre essa convenção?

É disto que mais gosto em Austen - a maneira como conhece o pensamento da sociedade do seu tempo e o modo como, limitando-se muitas vezes à respetiva descrição, o consegue ridicularizar. O segredo está na forma como o diz. Por exemplo, quando Mr. Darcy nos é apresentado, no terceiro capítulo, através dos olhos de terceiros:

“Os cavalheiros declararam-no muito mais bonito do que o senhor Bingley, e foi universalmente observado com grande admiração durante metade da noite, até ao instante em que as suas maneiras causaram um desgosto que mudou a maré da sua popularidade; sucedeu isso quando se descobriu que o senhor Darcy era orgulhoso, que se julgava superior a todos os presentes e que não estava satisfeito com a festa.”

Ou quando, no início do quinto capítulo, introduz Sir William Lucas, recorrendo à linguagem ou à perspetiva do próprio personagem:

“Sir William Lucas tivera em tempos negócios em Meryton, onde amassara uma fortuna razoável, e ascendera ao grau de cavaleiro através de uma petição ao rei, durante o seu mandato como provedor do concelho. A distinção subiu-lhe um pouco à cabeça, causando-lhe uma repentina aversão pelos negócios e pela sua residência numa vila mercantil; razão pela qual abandonou ambos, negócios e residência, e se mudou com a família para uma casa a cerca de uma milha de Meryton, que passou a ser conhecida como Lucas Lodge. Aqui, Sir William pôde dedicar-se a refletir com prazer na sua própria eminência e a mostrar-se, agora que estava livre dos negócios, cortês com toda a gente.”

Já em Charles Dickens, que nasceu poucos anos antes da morte de Austen, tudo me parece mais infantil (desde logo, os jogos de palavras ou as personagens caricaturais), mas não menos profundo. A descrição física das personagens ganha relevo e a ironia é menos azeda – estamos já mais próximos de Monty Python do que de Ricky Gervais. Vejamos a forma como é apresentada, no segundo capítulo, a irmã de Pip, o protagonista de Grandes Esperanças, nas palavras do próprio:

“A minha irmã, a Sra. Joe, com o seu cabelo e olhos negros, tinha sempre uma pele tão rubra que por vezes fazia-me ponderar a possibilidade de ela se lavar com um ralador de noz-moscada em vez de se servir de uma barra de sabão. Era uma mulher alta e de aparência ossuda, e andava quase sempre com um avental de material grosseiro à cintura, que cingia com dois laços atrás das costas, e um peitilho quadrado e invariavelmente imaculado à frente, repleto de agulhas e alfinetes cravados. O uso continuado deste avental representava para si um valoroso ponto de honra, ao passo que servia também de forma de censura apontada à pessoa de Joe. A verdade é que nunca vi razão para que ela se decidisse sequer a usá-lo, ou, já que se decidira pelo seu uso, não descortinava motivo algum para que não o tirasse todos os dias.”

Ou a descrição do Sr. Wemmick, no segundo capítulo do segundo volume:

“A sua boca assemelhava-se de tal modo à estreita abertura de um marco de correio que, mesmo quando inerte, parecia abarcar um sorriso mecânico.”

Ao longo do livro, o narrador vai recorrendo a esta imagem – por exemplo, quando o Sr. Wemmick come, é-nos dito não que coloca a comida na boca, mas sim na tal estreita abertura do marco de correio.

Em Austen, sinto que estou a ver o mundo na perspetiva de um adulto bem formado e muito inteligente que (felizmente) usa e abusa da ironia, por não se conseguir conformar com aquilo que vê. Em Dickens, fico com a ideia de que estou perante o equivalente a um extraordinário filme de desenhos animados para adultos, como Coco ou Soul, em que o recurso à caricatura, à metáfora e ao exagero é o mecanismo que permite mostrar-nos algo tão profundo e tão real como a própria vida.


Escrito por Tiago Gonçalves

Nota: Usei como referência as edições de Orgulho e Preconceito e de Grandes Esperanças da Relógio D´Água, com traduções, respetivamente, de José Miguel Silva e de Frederico Pedreira.

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