Escolhi dois autores que tenho lido muito nos últimos tempos
e que estão entre os meus favoritos (e entre os favoritos de muitos outros leitores). Para não complicarmos isto geograficamente, fizeram o favor de
nascer ambos na mesma ilha.
Comecemos, respeitando a
cronologia, por Jane Austen. Tomemos como referência uma das frases de abertura
mais conhecidas da história da literatura mundial:
“É uma verdade universalmente
reconhecida que um homem rico e solteiro precisa de uma esposa.”
Quem está aqui a falar? Será esta,
de facto, a opinião do narrador de Orgulho e Preconceito? Ou estará este
apenas a reproduzir a voz da sociedade da época? E, reproduzindo-a, não estará
desde logo – através da forma como nos fala - a emitir um juízo sobre essa
convenção?
É disto que mais gosto em Austen -
a maneira como conhece o pensamento da sociedade do seu tempo e o modo como, limitando-se
muitas vezes à respetiva descrição, o consegue ridicularizar. O segredo está na
forma como o diz. Por exemplo, quando Mr. Darcy nos é apresentado, no terceiro
capítulo, através dos olhos de terceiros:
“Os cavalheiros declararam-no
muito mais bonito do que o senhor Bingley, e foi universalmente observado
com grande admiração durante metade da noite, até ao instante em que as
suas maneiras causaram um desgosto que mudou a maré da sua popularidade;
sucedeu isso quando se descobriu que o senhor Darcy era orgulhoso, que
se julgava superior a todos os presentes e que não estava satisfeito com
a festa.”
Ou quando, no início do quinto capítulo,
introduz Sir William Lucas, recorrendo à linguagem ou à perspetiva do próprio
personagem:
“Sir William Lucas tivera em
tempos negócios em Meryton, onde amassara uma fortuna razoável, e ascendera ao
grau de cavaleiro através de uma petição ao rei, durante o seu mandato como provedor
do concelho. A distinção subiu-lhe um pouco à cabeça, causando-lhe uma
repentina aversão pelos negócios e pela sua residência numa vila mercantil;
razão pela qual abandonou ambos, negócios e residência, e se mudou com a
família para uma casa a cerca de uma milha de Meryton, que passou a ser
conhecida como Lucas Lodge. Aqui, Sir William pôde dedicar-se a refletir
com prazer na sua própria eminência e a mostrar-se, agora que estava livre
dos negócios, cortês com toda a gente.”
Já em Charles Dickens, que nasceu poucos
anos antes da morte de Austen, tudo me parece mais infantil (desde logo, os
jogos de palavras ou as personagens caricaturais), mas não menos profundo. A
descrição física das personagens ganha relevo e a ironia é menos azeda –
estamos já mais próximos de Monty Python do que de Ricky Gervais. Vejamos a forma
como é apresentada, no segundo capítulo, a irmã de Pip, o protagonista de Grandes
Esperanças, nas palavras do próprio:
“A minha irmã, a Sra. Joe, com o
seu cabelo e olhos negros, tinha sempre uma pele tão rubra que por vezes
fazia-me ponderar a possibilidade de ela se lavar com um ralador de
noz-moscada em vez de se servir de uma barra de sabão. Era uma mulher alta
e de aparência ossuda, e andava quase sempre com um avental de material
grosseiro à cintura, que cingia com dois laços atrás das costas, e um peitilho
quadrado e invariavelmente imaculado à frente, repleto de agulhas e alfinetes
cravados. O uso continuado deste avental representava para si um valoroso
ponto de honra, ao passo que servia também de forma de censura apontada à
pessoa de Joe. A verdade é que nunca vi razão para que ela se decidisse
sequer a usá-lo, ou, já que se decidira pelo seu uso, não descortinava motivo
algum para que não o tirasse todos os dias.”
Ou a descrição do Sr. Wemmick, no
segundo capítulo do segundo volume:
“A sua boca assemelhava-se de tal
modo à estreita abertura de um marco de correio que, mesmo quando
inerte, parecia abarcar um sorriso mecânico.”
Ao longo do livro, o narrador vai
recorrendo a esta imagem – por exemplo, quando o Sr. Wemmick come, é-nos dito não que coloca a
comida na boca, mas sim na tal estreita abertura do marco de correio.
Em Austen, sinto que estou a ver
o mundo na perspetiva de um adulto bem formado e muito inteligente que (felizmente)
usa e abusa da ironia, por não se conseguir conformar com aquilo que vê. Em
Dickens, fico com a ideia de que estou perante o equivalente a um
extraordinário filme de desenhos animados para adultos, como Coco ou Soul,
em que o recurso à caricatura, à metáfora e ao exagero é o mecanismo que
permite mostrar-nos algo tão profundo e tão real como a própria vida.
Escrito por Tiago Gonçalves
Nota: Usei como referência as edições de Orgulho e Preconceito e de Grandes Esperanças da Relógio D´Água, com traduções, respetivamente, de José Miguel Silva e de Frederico Pedreira.
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