Tenho uma
confissão a fazer: não aprecio a forma como o Ernest Hemingway escreve.
Atenção: acho
as suas histórias tremendamente importantes. Não vou começar a insultar um dos
maiores escritores do século XX só porque as suas narrativas não me tocam da
forma que creio que deveriam. Apesar de não serem as minhas experiências de
leituras favoritas, são clássico bastante acessíveis, maioritariamente curtos,
e continuo a ler pelo menos um por ano.
Durante imenso
tempo, justifiquei a minha posição com o meu gosto para livros mais virados
para a interioridade, com menos diálogo e ação. Por exemplo, a abertura de A
Imortalidade em que observamos uma mulher a nadar. É há mais de dez anos a minha
abertura favorita de um livro.
Agora que
folheei alguns dos meus clássicos favoritos em busca de exemplos, percebi que
não é bem verdade: A Leste do Paraíso tem diálogo para dar e vender e
não me induz na espiral ansiosa e desorientada que senti ao ler Por quem os sinos
dobram. Os Subterrâneos da Liberdade tratam assuntos igualmente sérios
e políticos, no entanto, a escrita do Jorge Amado é tão cinematográfica que me
transporta para fora da página e para um cenário de telenovela. Kurt Vonnegut
escreve uma experiência completamente surreal entre raptos alienígenas e o
bombardeamento de Dresden no Matadouro Cinco e eu não leio as páginas num
ziguezague constante para saber o que vai acontecer ao ponto de ter de reler
todas as páginas duas vezes: primeiro o diálogo, depois o restante texto.
E todos eles
usam o mesmo recurso tipográfico para marcar o diálogo: o travessão Portanto,
não é uma questão de forma e de «fazer batota» para saber o que se vai passar a
seguir.
Começo a achar
que o problema sou eu.
Em A Leste do Paraíso a interposição do diálogo com excertos mais descritivos já ajudam a marcar o ritmo de outra forma e tornam o diálogo mais compreensível.
Kurt Vonnegut descreve-nos cenários completamente absurdos e mesmo assim tenho melhor compreensão do que se está a passar do que nas rajadas de páginas e páginas de diálogo de Hemingway.

É.
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