domingo, 19 de abril de 2026

Exercício 12: A voz do autor — de uma mulher na piscina a rajadas de metralhadora

Tenho uma confissão a fazer: não aprecio a forma como o Ernest Hemingway escreve.

Atenção: acho as suas histórias tremendamente importantes. Não vou começar a insultar um dos maiores escritores do século XX só porque as suas narrativas não me tocam da forma que creio que deveriam. Apesar de não serem as minhas experiências de leituras favoritas, são clássico bastante acessíveis, maioritariamente curtos, e continuo a ler pelo menos um por ano.

Durante imenso tempo, justifiquei a minha posição com o meu gosto para livros mais virados para a interioridade, com menos diálogo e ação. Por exemplo, a abertura de A Imortalidade em que observamos uma mulher a nadar. É há mais de dez anos a minha abertura favorita de um livro.

Agora que folheei alguns dos meus clássicos favoritos em busca de exemplos, percebi que não é bem verdade: A Leste do Paraíso tem diálogo para dar e vender e não me induz na espiral ansiosa e desorientada que senti ao ler Por quem os sinos dobram. Os Subterrâneos da Liberdade tratam assuntos igualmente sérios e políticos, no entanto, a escrita do Jorge Amado é tão cinematográfica que me transporta para fora da página e para um cenário de telenovela. Kurt Vonnegut escreve uma experiência completamente surreal entre raptos alienígenas e o bombardeamento de Dresden no Matadouro Cinco e eu não leio as páginas num ziguezague constante para saber o que vai acontecer ao ponto de ter de reler todas as páginas duas vezes: primeiro o diálogo, depois o restante texto.

E todos eles usam o mesmo recurso tipográfico para marcar o diálogo: o travessão Portanto, não é uma questão de forma e de «fazer batota» para saber o que se vai passar a seguir.

Começo a achar que o problema sou eu.





A abertura de A Imortalidade, perfeita, sem defeitos.


Trecho de O Adeus às Armas: diálogo completamente alucinante, a certo ponto já nem sei bem quem está a dizer o quê.


Em A Leste do Paraíso a interposição do diálogo com excertos mais descritivos já ajudam a marcar o ritmo de outra forma e tornam o diálogo mais compreensível. 


Kurt Vonnegut descreve-nos cenários completamente absurdos e mesmo assim tenho melhor compreensão do que se está a passar do que nas rajadas de páginas e páginas de diálogo de Hemingway.


O Jorge Amado consegue ser visual sem ser excessivamente descritivo. Consigo imaginar os gestos, o tom de voz e o andar das personagens neste trecho.

1 comentário:

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  —  Agora só amanhã.