De que forma duas autoras podem musicar o quotidiano feminino de dois modos totalmente distintos?
A música de Maria Judite de Carvalho teria certamente uma melodia daquelas que começam muito baixinho, criando robustez num crescendo suave que a meio culmina em algo que ganha a força de quem, por momentos, encontra uma réstia de esperança. Depois, as notas musicais voltam a ir-se perdendo pelo caminho, lentamente, terminando de forma incompleta, como uma nota que fica por tocar − um final suspenso em que tudo é um quase: a presença, o amor, a felicidade, a morte.
São estes finais tão característicos dos seus contos o que considero mais belo naquilo que seria a sua música. As suas histórias são retratos de um quotidiano de silêncios, de gente (esmagadoramente mulheres) solitária, rejeitada, já sem sonhos ou tendo-os perdido pelo caminho, esbarrando numa sociedade, num homem, numa circunstância irremediável. Esperamos que algo mude, que a canção se desdobre numa história de amor ou superação. Só que no final, a realidade é irresoluta, revelando cruelmente as dificuldades de viver numa sociedade em que toda a gente é perversa. O seu ritmo é circular, montando um ambiente claustrofóbico de um tempo que não passa. É a música de uma mulher deslocada no mundo que escreve sobre gente incompreendida.
Depois, temos Teresa Veiga, em Cidade Infecta: o relato das relações de duas mulheres banais que se encontram e formam uma amizade durante uma aula de informática, que partilham da mesma infelicidade nos seus casamentos, que se sentem insatisfeitas, conformadas com as suas vidas. No entanto, se Maria Judite é feita de silêncios e de cinismos melancólicos, a música de Veiga imprime um movimento que impede este conformismo do quotidiano feminino de se tornar estático. Não há palavras poupadas, nada fica por dizer:
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