quinta-feira, 7 de maio de 2026

Exercício 12: A música do quotidiano feminino

 

De que forma duas autoras podem musicar o quotidiano feminino de dois modos totalmente distintos?

 

    A música de Maria Judite de Carvalho teria certamente uma melodia daquelas que começam muito baixinho, criando robustez num crescendo suave que a meio culmina em algo que ganha a força de quem, por momentos, encontra uma réstia de esperança. Depois, as notas musicais voltam a ir-se perdendo pelo caminho, lentamente, terminando de forma incompleta, como uma nota que fica por tocar − um final suspenso em que tudo é um quase: a presença, o amor, a felicidade, a morte.


 



    São estes finais tão característicos dos seus contos o que considero mais belo naquilo que seria a sua música. As suas histórias são retratos de um quotidiano de silêncios, de gente (esmagadoramente mulheres) solitária, rejeitada, já sem sonhos ou tendo-os perdido pelo caminho, esbarrando numa sociedade, num homem, numa circunstância irremediável. Esperamos que algo mude, que a canção se desdobre numa história de amor ou superação. Só que no final, a realidade é irresoluta, revelando cruelmente as dificuldades de viver numa sociedade em que toda a gente é perversa. O seu ritmo é circular, montando um ambiente claustrofóbico de um tempo que não passa. É a música de uma mulher deslocada no mundo que escreve sobre gente incompreendida.





Recordei-me do tema "Rescue Me", da banda sonora do filme Atonement, composto por Dario Marianelli.

 

 


    Depois, temos Teresa Veiga, em Cidade Infecta: o relato das relações de duas mulheres banais que se encontram e formam uma amizade durante uma aula de informática, que partilham da mesma infelicidade nos seus casamentos, que se sentem insatisfeitas, conformadas com as suas vidas. No entanto, se Maria Judite é feita de silêncios e de cinismos melancólicos, a música de Veiga imprime um movimento que impede este conformismo do quotidiano feminino de se tornar estático. Não há palavras poupadas, nada fica por dizer:




    A linguagem torna-se um elemento vivo na narrativa, convidando o leitor a estar presente com todo o corpo. Contagia-nos de tal modo que nos faz deslizar pela narrativa compulsivamente. Partilho um excerto que, para mim, é muito representativo desta escrita. A descrição de duas personagens a dançar juntas pela primeira vez. O cómico da situação, o dramatismo na descrição dos movimentos, o modo como se sente o clima da atração e a sensualidade desajeitada entre ambos:



    Com Maria Judite, lemos para compreender a dor da banalidade; com Teresa Veiga, lemos para sentir a pulsação que sobrevive dentro dessa mesma banalidade. A ironia transforma a tristeza em algo patético, e o patético é muito mais suportável do que o trágico. Escrever sobre uma vida "infecta" e desordenada com uma clareza absoluta é uma forma de dominar o caos. O leitor não se sente desolado, sente-se lúcido. Teresa Veiga seria uma sinfonia de intensidades, talvez como um "Flight of the Bumblebee".







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