Em resposta ao exercício proposto, fui no dia 16 de abril à Bertrand do Centro Comercial Campo Pequeno*. Decidi não procurar de forma deliberada livros que considerasse dignos de nota, mas antes deixá-los “convidarem-me a ir ter com eles”, quer num movimento de atração, quer num de curiosidade quase mórbida (Ahhh! Que coisa tão feia! O que é aquilo?).
O primeiro livro que me chamou a atenção, neste caso pela positiva, foi o Menina Má, de William March, editado em abril deste ano pela própria Bertrand.
Nem sempre sou fã da fórmula “fotografia a preto e branco + tipografia colorida em contraste”, mas, aqui, considero que foi executada com grande elegância. E mais do que elegante, parece-me adequada, pois reflete a duplicidade do título: se, por um lado, o cor-de-rosa, comumente associado à “menina”, é delicado, a ausência de cor na fotografia de uma criança, por outro, é inquietante, pois rompe a imagem mental que temos (à partida) da figura infantil — cor, alegria — podendo remeter, por isso, para o adjetivo que dá título à obra: “má”.
O meu único senão quanto a este design é que, pessoalmente, não aprecio a informação acerca dos exemplares vendidos “escarrapachada” na capa. Destoa da elegância conseguida e, para além disso, rouba ao nome do autor um espaço que o apresentaria melhor.
Aprecio que na contracapa esteja presente uma sinopse, e ainda mais que essa sinopse seja, mais do que um breve resumo da história, um chamariz que convida à sua descoberta. A contextualização da obra não me parece despropositada, sobretudo tendo em conta que a edição aqui escrutinada é a primeira portuguesa, sendo, tal como a sinopse, envolvente e mordaz. As alusões ao galardão com o qual quase foi premiada, o National Book Award, bem como aos elogios que lhe foram tecidos (ou, melhor dizendo, a quem os teceu), também são bem-vindas.
Gosto muito da badana anexa à capa. Por vezes, a informação acerca do autor é dispensável — neste caso, considero-a útil. E, para além de útil, é concisa, o que também é importante, já que as badanas atulhadas de texto cansam e raramente são lidas. Também gosto do uso da badana anexa à contracapa como espaço para críticas e opiniões.
Esta é a edição de O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë, que a Dom Quixote publicou em março de 2015.
Talvez seja injusto escrutinar uma capa que evidentemente já não corresponde aos padrões do mundo editorial atual, mas que, parece-me, correspondeu muito bem aos do seu ano de publicação. Digo isto porque, ao vê-la numa estante em 2026, senti quase que tinha encontrado uma "cápsula do tempo" de 2015. E talvez isso não seja sempre negativo, mas a verdade é que, hoje, esta capa impede-me de comprar este livro.
Não quero com isto dizer que as capas mais antigas e/ou desatualizadas sejam inerentemente pouco apelativas — gosto muito mais, desta capa do Crónica dos Bons Malandros, de Mário Zambujal, do que das mais recentes —, e sim que certos grafismos talvez não sejam tão resistentes à evolução dos gostos dos leitores. Mas esta, convenhamos, não é particularmente bonita.
Uma citação e uma sinopse bem conseguidas ficam sempre bem numa contracapa — e, apesar de não gostar muito dos dois dois-pontos quase seguidos no segundo parágrafo (o que sucede à palavra “poderoso” poderia, talvez, ser substituído por um travessão), este é um bom exemplo disso. O que não fica tão bem é a repetição de informação acessória que já está presente na capa: “Um dos maiores clássicos da literatura de todos os tempos.” Apesar disso, não considero esta nota completamente desnecessária; acho até que ela melhor se adequa ao espaço da contracapa e, por isso, optaria por omiti-la da capa e mantê-la aqui.
Não consigo compreender a decisão de sumarizar o enredo desta obra na badana anexa à capa. Certo é que O Monte dos Vendavais, como a Dom Quixote faz questão de nos lembrar pelo menos três vezes, é “um dos maiores clássicos da literatura” — já para não falar da constante repetição de que se trata de uma grandiosa/maravilhosa/etc. história de amor —, e que, por isso, não estão propriamente a dar nenhum spoiler. Contudo, existindo na contracapa uma sinopse que diz o suficiente, incitando a curiosidade até do leitor que já saiba alguma coisa sobre a história, porquê assassiná-la na badana?
Quanto à outra badana, aponto apenas que, no primeiro parágrafo, onde se lê: “A família constituía uma sociedade fechada e isolada, e os quatro irmãos sentem desde a infância motivação para o estudo…” ficaria melhor “sentiram” em vez de “sentem”, de modo a preservar a concordância verbal com o resto da nota biográfica.
Da Porto Editora chega-nos Ele & Ela, de Alice Feeney, publicado em junho de 2021.
Apesar de não gostar da capa de O Monte dos Vendavais, dou-lhe crédito por não ser tão insípida quanto esta. Não duvido que a imagem dos cabos que se desenlaçam, mas simultaneamente se entrelaçam com o “Ele” e “Ela”, seja ilustrativa do enredo da história, mas a verdade é que não me incentiva a conhecê-lo. Até a inscrição “Alguém está a mentir” se torna pouco apelativa devido à ausência de reticências carregadas de suspense ou de um ponto final incisivo.
Em linha com a capa, a contracapa é igualmente pouco inspirada. Sendo dado o palco à sinopse, esta poderia — e deveria — ser intrigante; afinal, trata-se de um thriller. No entanto, revela-se trôpega devido à falta de ritmo e incapaz de arrebatar, ou pelo menos cativar, o leitor.
Se não havia muito a dizer quanto à capa e à contracapa, há ainda menos a dizer sobre as badanas. À da esquerda falta algum brio estilístico — uma moldura em torno da fotografia da autora ou um maior destaque dado ao seu nome —, mas a nota biográfica funciona como incentivo à leitura da obra, porque aproxima a vida profissional e, quiçá, pessoal da autora ao enredo. Faz-nos perguntar, por momentos, se algum detalhe da história será autobiográfico, e isso pode ser um benefício.
Quanto à badana da direita, há ainda menos a comentar, salvo que, neste caso, diria até ser útil passar para a contracapa uma das críticas nela incluídas (talvez a da Booklist).
O penúltimo livro que quero mencionar é Graziella, de Alphonse Lamartine, editado pela Minotauro em fevereiro deste ano.
Acho o design desta edição muito interessante. Para além de bonito, é também inteligente: a ausência de uma paleta de cores mais vasta, sendo o maior contraste entre o índigo e o cor-de-laranja sobre fundo branco, faz com que a capa se destaque entre as restantes, quase todas mais coloridas. Penso que a bicromia seja parte da identidade visual da coleção “Clássicos do Século XIX” e, por isso, não uma escolha feita especificamente para este livro. A imagem escolhida, por sua vez, não podia ser mais propositada: trata-se de uma pintura homónima da obra, da autoria de Jules-Joseph Lefebvre. Já foi muito utilizada, como seria de esperar, em várias edições internacionais; mas, na edição da Minotauro, ganha uma nova vida.
A contracapa é de objetiva simplicidade e funciona bem. Diria apenas que, de modo a melhor dar continuidade à elegância conseguida na capa, teria sido benéfico evitar a translineação na sinopse. O problema da translineação alastra-se às badanas, embora seja menos evidente — ou mais justificável, devido ao menor espaço de manobra. Gosto especialmente da badana anexa à contracapa e do excerto da introdução de Ricardo Mangerona.
Finalmente, um pequeno livro que quase me passou despercebido: a edição de bolso de O Primo Basílio, de Eça de Queirós, da chancela 11 X 17 do Grupo Bertrand, publicada no mês passado.
A capa desta edição surpreendeu-me muito, pela positiva, por ser tão diferente das que já vi — ora desatualizadas, ora um pouco foleiras — da mesma obra. É simples, mas agradável, e, sobretudo, traz frescura e novidade a este clássico.
A contracapa, por sua vez, não tem grande inovação; mas não há nada a apontar-lhe (a não ser uma singela translineação, se quisermos ser muito picuinhas), e isso já é de louvar.
*Inicialmente ia apontar a pertinência desta observação porque pensei: “Bom, já passou algum tempo... Provavelmente os preços já não são os mesmos”. Erro meu. É a Bertrand — claro que as mesmas promoções ainda estão, ou entretanto voltaram a estar, em vigor.
Beatriz Urbano


















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