Reflexo do Ódio
Não conheço alguém tão enervante quanto a pessoa que me observa do outro lado do espelho.
Porque é que sempre que olha para mim, é como se preferisse estar diante a qualquer outra coisa?
Aqueles olhos frios, a pele irregular, o cabelo despenteado.
Refresco a cara e encaro o espelho, novamente.
Ela ainda está aqui. A mesma expressão na face.
Acontece com todos os espelhos e como gostava que fosse diferente.
Porque é que ela não desaparece?
Diante a mim, encontra-se esta gémea maléfica que procura aumentar o meu desespero interior. Não sei quando deixei de gostar dela, mas fujo de espelhos como o diabo foge da cruz.
Mal consigo andar na rua. Já repararam na quantidade de superfícies refletoras presentes no nosso dia-a-dia? Montras, vidros, poças de água - tudo me apavora. Por isso, prefiro olhar para o céu e para a natureza, ao invés desta tristeza. Já tentei de tudo, desde chapéus compridos para evitar as montras, a óculos escuros que dificultem a visão, mas nada funciona. Sou como Narciso, condenado a uma eternidade de sofrimento por olhar para o meu reflexo; aquele cruel gémeo de quem não posso escapar.
Deverei cegar-me, como fizera Édipo, no ápice da sua dor?
Mas isso de nada serviria, e sabem porquê? Porque não preciso de olhos ou superfícies refletoras para a ver; não quando ela está sempre na minha cabeça, aterradoramente presente até quando fecho os olhos.
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