Não é uma aula. Apenas estarei na nossa sala, às 18h, para conversar com quem quiser aparecer. Conto sair às 19h30. Será, digamos, um epílogo.
A maior parte da turma trabalhou bastante e bem. Acredito que é trabalhando, de preferência ás escuras, às apalpadelas, por aproximação e erro, que se aprende verdadeiramente. E que o retorno depende do nosso investimento. Tiveram exercícios vários, três profissionais de luxo, e um trabalho final que trabalha quase todos os músculos necessários nesta área. A nota que vos der é um pró-forma. Que nota cada um de vós, no íntimo, se dá?
Nota: gostei mesmo do Clube dos Poetas Mortos do Diogo Infante, no Trindade, porque recoloca em pratos limpos o essencial e o acessório: não o empenho do professor, mas sim o dos alunos. O filme pecava por, devido à energia de Robin Williams, dar demasiado protagonismo à componente errada.
Nestas áreas humanas, acredito que a tónica está no aprender bem mais do que no "ensinar".
E deixo um poema de Herberto que saquei daqui:
Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objetos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável, apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega.
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