sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

"Bonus Pater Familias", em bruto e editado

 Bonus pater familias, em bruto

O meu pai sempre foi um homem muito mentiroso. Creio que não o era por maldade, mas sim por cobardia. Enfrentar a realidade é difícil para muita gente e parece-me que ele sentia a mentira como um ato de piedade em relação ao seu interlocutor. Ou então não sentia nada disto e era simplesmente um grande mentiroso. (Tiago)

Eu não sei mentir e talvez essa tenha sido a maior bênção que ele me dera. (Adriana)

O espelho que enfrento reflete a mesma bela curva que adornava o seu nariz, o meu cabelo contorce-se num padrão familiar, mas a minha boca jamais se move do mesmo jeito enganador. (Diana)

Uma grande distância nasceu entre nós através do vazio que ele criou com tantas palavras mortas. (Inês)

Foi, portanto, difícil para mim responder-lhe à pergunta: fui um bom pai para ti? Estaria ele a mentir a si mesmo, obrigando-me a mentir-lhe naquela hora derradeira? Ou dependeria de mim um último golpe de misericórdia? Respondi-lhe (André)

Fui eu o filho que esperavas? Tracei-lhe a mesma armadilha, teria ele de ser o primeiro a responder honestamente ou mentindo; a responsabilidade deve recair sobre o progenitor. (Ana)

O que ouvi da sua boca foi surpreendente. Não porque, num momento de iluminação, me tivesse dito algo a que se pudesse, de forma credível, associar à verdade, mas por razões mais inusitadas. (Tiago)

Disse que sim, que me adorava e que se orgulhava da pessoa em que me tornei, mas como pode isto ser verdade? (Adriana)

Pensei que ele nem conhecesse sequer essas palavras, até ao momento em que as proferiu. (Diana)

Como pode ele adorar alguém que nem parece conhecer. Irei eu acreditar por mais que queira que alguém que tanto me mentiu o fez para o meu bem? (Inês)

Por isso, disse-lhe logo: não mintas se não me quiseres dizer a verdade. Sei quem sou e não preciso de palmadinhas nas costas. Diz-me outra vez, olhos nos olhos: foste um bom pai para mim? (André)

- Fui tão bom pai como tu foste bom filho! Se a mentira abunda nas nossas vidas é porque ambos o desejámos. (Ana)

Quando acordei, levei algum tempo a perceber que estava deitado no sofá de Alice e que à minha frente não se encontrava o meu pai, mas sim uma televisão que transmitia as televendas. Uma senhora garantia-me que um determinado trem de cozinha iria mudar a minha vida. (Tiago)


                                                                            Bonus pater familias, editado

O meu pai sempre foi um homem muito mentiroso. Creio que não o era por maldade, mas por cobardia.

Enfrentar a realidade é difícil para muita gente e parece-me que ele sentia a mentira como um ato de piedade em relação ao seu interlocutor. Ou então não sentia nada disto e era simplesmente um grande mentiroso. Eu não sei mentir e talvez essa tenha sido a maior bênção que ele me deu.

O espelho que enfrento reflete a mesma bela curva que adornava o seu nariz, o meu cabelo contorce-se num padrão familiar, mas a minha boca jamais se move com o intuito de enganar. Uma grande distância nasceu entre nós através do vazio que ele criou com tantas palavras mortas.

Foi, portanto, difícil para mim responder-lhe à pergunta: fui um bom pai para ti? Estaria ele a mentir a si mesmo, obrigando-me a mentir-lhe de volta? Esperaria de mim um ato de misericórdia?

Respondi-lhe: fui o filho que esperavas? Tracei-lhe, assim, a mesma armadilha. Teria de ser ele o primeiro a responder, honestamente ou mentindo. A responsabilidade deveria recair primeiro sobre o progenitor.

O que ouvi da sua boca foi surpreendente. Não porque, num momento de iluminação, me tivesse dito algo que se pudesse, de forma credível, associar à verdade, mas por razões mais inusitadas. Respondeu que sim, que me adorava e que se orgulhava da pessoa em que me tinha tornado. Mas como pode isto ser verdade?

Pensei que ele não estivesse sequer a par da existência dessas palavras, até ao momento em que as proferiu. Como pode ele adorar alguém que nem parece conhecer? Irei eu acreditar, por mais que queira, que alguém que tanto me mentiu o fez para meu bem?

 Não mintas se não me quiseres dizer a verdade – disse-lhe. – Sei quem sou e não preciso de palmadinhas nas costas. Diz-me outra vez, olhos nos olhos: foste um bom pai para mim?

– Fui tão bom pai como tu foste bom filho! Se a mentira abunda nas nossas vidas é porque ambos o desejámos respondeu ele.

Quando acordei, levei algum tempo a perceber que estava deitado no sofá de Alice e que à minha frente não se encontrava o meu pai, mas sim uma televisão que transmitia as televendas. Uma senhora garantia-me que um determinado trem de cozinha iria mudar a minha vida.

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