Colocaram-me uma folha de papel à frente. Franzi o sobrolho. Pensei para mim própria: "Já não me deparava com este histórico objeto há 50 anos... Certamente que o deixámos para trás. Então o que vem a ser isto?"
Ninguém vinha a meu auxílio, por isso, comecei a divagar. De facto, já se desaprendeu a arte de fazer correr tinta. É uma expressão em desuso tal como este objeto perante mim. Basta-lhe um rasgão, ou um líquido entornado por acidente, e esta mera folha de papel passa à condição de inútil.
"Irónico, não é?", pensei para dentro. Esta leve folha, em tempos, reinava sobre o mundo. Fossem certidões, livros milenares, ou até mesmo os históricos tratados! Agora? Não vale de nada! A História - e nós mesmos - matámos justamente o grande comprovativo da nossa existência, aquilo que nos mantém vivos.
Uma mudança natural, certamente... Ora pensem: o papel não muda de conteúdo com o passar do dedo, não possui cores estimulantes, ou músicas que nos entopem os ouvidos causando uma espécie de paralisia cerebral... O papel apenas nos ofereceu possibilidades, e não desejávamos isso, preferimos distrações.
É isso! Distrações! Qualquer coisa que nos liberte da asfixia do mundo. Pensamento? Isso é uma mera perda de tempo, temos quem pense por nós.
Algum tempo passou, e o papel continuava imóvel na mesa. Ninguém por perto. Por um estranho instinto, decidi apontá-lo contra a luz. "Uma mensagem, talvez?", Abanei rapidamente a cabeça. "Que absurdo." Pousei-o de volta na mesa. A única mensagem possível é a de que este objeto se perdeu no tempo. Porque raio regressou até mim?
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