Em pleno inverno, um elefante com um vestido cor-de-rosa e unhas pintadas de verde florescente foi avistado a voar, com um ar aborrecido, pela cidade de Aveiro. Aquele animal, que no passado se arrastava, levitava agora pelos canais, fazendo ciúmes aos moliceiros e deixando um rasto de espanto e curiosidade na expressão dos turistas. Não obstante a estupefação daqueles que por ali passavam, o elefante insistia no seu bailado. Os turistas, habituados apenas às danças dos peixes na ria, murmuravam entre si sobre os motivos que levaram o elefante à representação de tão bela peça. Vários cidadãos, de lágrimas nos olhos, comentavam que tal espetáculo merecia maior público, antevendo a necessidade de criar um evento itinerante que passasse por outras cidades do país, como Coimbra, Castelo Branco e até pelo Seixal.
Tão conhecido ficou o pobre elefante que atraíra atenções
indesejadas: os cientistas russos. Os próximos meses deixaram várias cidades
portuguesas assoberbadas com a quantidade de russos, que não conseguiam prever
com precisão a trajetória do elefante dançante. E o elefante, continuou a voar,
pávido e sereno, sem fazer a menor ideia de que cidades inteiras paravam para a
sua passagem tão peculiar. E nem sonhava, que estava, na realidade, em perigo a
sua liberdade – queriam pará-lo urgentemente para o poder testar. Afinal de
contas, todos queremos voar.
O impacto foi tal que o novo governo teve de proibir a
cobertura televisiva do Elefante de Aveiro. Não havia forma de diminuir o
gigantesco afluxo de remos em Portugal para ver este nobre mamífero. A ria tornara-se
pequena para tamanha enchente de curiosos. Nessa altura, já o sindicato dos
Peixes se havia reunido inúmeras vezes, para combater tão desleal concorrência;
que a Ria sempre tinha sido deles; que todas as atenções sempre neles estiveram
concentradas e estavam agora relegados para o plano da indiferença. Decidiram
então estrear um novo número, convidando a participar figuras internacionais. Foi
neste sentido que o reunido sindicato acabou por decidir enviar a Sua Alteza
Real, Doutor Elon Musk, um convite não só para participar no evento, mas também
para os apadrinhar, à imagem dos apadrinhamentos que acontecem em Lisboa.
Porém não havia nada que pudessem fazer para retirar as
atenções do elefante de cor-de-rosa, que continuou a esvoaçar Portugal e a alegrar
quem sabia simplesmente apreciar a nova arte do esplêndido animal. "Foda-se"
disseram os Russos, mas em Russo.
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